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SALVAÇÃO OU PROSPERIDADE?

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quinta-feira, março 27, 2008

O Padrão Bíblico de Avivamento

por
Rev. Josivaldo de França Pereira

Qual o padrão bíblico de avivamento? Os avivamentos bíblicos oferecem alguma coordenada para a renovação da igreja evangélica no Brasil de hoje?
Estas são algumas das perguntas que procuraremos responder no decorrer desse estudo.
I - O significado bíblico do termo "Avivamento":
1.1. No Antigo Testamento:O verbo hebraico hyh (avivar) tem o significado primário de "preservar" ou "manter vivo". Porém, "avivar" não significa somente preservar ou manter vivo, mas também purificar, corrigir e livrar do mal. Esta é uma conseqüência natural em toda vez que Deus aviva. Na história de cada avivamento, dentro ou fora da Bíblia, lemos que Deus purifica, livra do mal e do pecado, tira a escória e as coisas que estavam impedindo o progresso da causa (1).
O verbo "avivar", em suas várias formas (2), é usado mais de 250 vezes no Antigo Testamento, das quais 55 vezes estão num grau chamado piel. Um verbo nas formas do Piel expressa uma ação ativa intensiva no hebraico. Neste sentido, o avivamento é sempre indicado como uma obra ativa e intensiva de Deus. Alguns exemplos de sua ocorrência são as clássicas orações de Davi, como esta: "Porventura, não tornarás a vivificar-nos (3), para que em ti se regozije o teu povo?" (Sl 85.6) (4), e da clássica oração do profeta Habacuque: "Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2).
1.2. No Novo Testamento:Encontramos no Novo Testamento grego um conjunto de palavras que expressam o conceito básico de avivamento. São elas: 'egeíro, 'anastáso, 'anázoe e 'anakaínoo. Outras palavras gregas comparam o avivamento ao reacender de uma chama que se apaga aos poucos (cf. 'anazopyréo em 2 Tm 1.6) ou uma planta que lança novos brotos e "floresce novamente" (cf. 'anaphállo em Fp 4.10).
No Novo Testamento grego as palavras supracitadas aparecem, no contexto de avivamento, apenas sete vezes, embora a idéia básica de avivamento seja sugerida com mais freqüência. Uma possível explicação para o uso escasso dos termos, em comparação ao Antigo Testamento, é que o Novo cobre apenas uma geração, durante a qual a Igreja Cristã desfrutou, na maior parte do tempo, um grau incomum de vida espiritual.
II - O que não é avivamento bíblico:
Antes de falarmos sobre avivamento bíblico, propriamente dito, acreditamos ser de grande ajuda uma abordagem, mesmo que rápida, do que não é o padrão bíblico de avivamento.
O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro AVIVAMENTO URGENTE, apresenta sete interessantes razões sobre o que não deve ser entendido como avivamento de verdade. Sou devedor ao dileto colega por suas pertinentes observações. Transcrevo-as quase que na íntegra.
2.1. Avivamento não é um programa agendado pela igreja.Avivamento não é ação da igreja, mas de Deus. Avivamento é obra soberana e livre do Espírito Santo. A igreja não promove e nem faz avivamento. A igreja não é agente de avivamento. A igreja não agenda e nem programa avivamento. A igreja só pode buscar o avivamento e preparar o caminho da sua chegada. A igreja não produz o vento do Espírito, ela só pode içar suas velas em direção a esse vento.
A soberania de Deus, no entanto, não anula a responsabilidade humana. O avivamento jamais virá se a igreja não preparar o caminho do Senhor (5). O avivamento jamais acontecerá se a igreja não se humilhar. Sem oração da igreja, as chuvas torrenciais de Deus não descerão. Sem busca não há encontro. Sem obediência a Deus, jamais haverá derramamento do Espírito. Contudo, quem determina o quando e o como do avivamento é Deus. Ele é soberano. David Brainerd orou vários anos pelo avivamento entre os índios peles vermelhas no século XVIII. Aquele jovem, ajoelhado na neve, suava de molhar a camisa, em agonia de alma, em oração fervente, em favor daqueles pobres índios. Quando o seu coração parecia desalentado e já não havia prenúncios de chuva da parte de Deus, o Espírito foi poderosamente derramado e os corações se dobraram a Cristo aos milhares.
2.2. Avivamento não é mudança doutrinária.Cometem ledo engano aqueles que querem descartar a teologia e desprezar a doutrina na busca do avivamento. Desprezar a doutrina é dinamitar os alicerces da vida cristã. Desprezar a doutrina é querer levantar um edifício sem lançar o fundamento. Desprezar a doutrina é querer por um corpo de pé e em movimento sem a estrutura óssea.
Não há vida piedosa sem doutrina. A doutrina é a base da ética. A teologia é mãe da ética. "Assim como o homem crê no seu coração, assim ele é" (Pv 23.7).
Vida sem doutrina gera misticismo e experiencialismo subjetivista. Avivamento sem doutrina é fogo de palha, é movimento emocionalista, é experiencialismo personalista e antropocentrista. Deus tem compromisso com a verdade e a sua Palavra é a verdade e todo avivamento precisa estar fundamentado na Palavra. O avivamento precisa estar norteado pelas Escrituras e não por sonhos e visões. Precisa estar dentro das balizas da Bíblia e não dentro dos muros de revelações subjetivistas, muitas vezes feitas na carne.
2.3. Avivamento não é mudança litúrgica.Muitos crentes confundem avivamento com forma de culto, com liturgia animada, com coreografia e instrumental aparatoso.
Louvor não é encenação. Não é mimetismo. Não é ritualismo. Não é emocionalismo. Não é apenas seguir formas pré-estabelecidas, como bater palmas, dizer aleluia, amém e levantar as mãos. Louvor não é pululância, gingos e dança (6). Louvor que apenas levanta as mãos para o alto, mas não as estende para o necessitado não agrada a Deus. A Bíblia ordena levantar mãos santas ao Senhor, num gesto de rendição e entrega (I Tm 2.8). Louvor em que a pessoa apenas saltita e pula, mas não vive em santidade, é ofensa a Deus. Louvor que apenas verbaliza coisas bonitas para Deus, mas não leva Deus a sério na vida é fogo estranho diante do Senhor.
Louvor que não produz mudança de vida, quebrantamento, obediência e não leva as pessoas a confiarem em Deus, não é louvor, é barulho aos ouvidos de Deus. Assim diz o Senhor: "Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas liras" (Am 5.23).
Hoje estamos vivendo a época dos shows evangélicos, dos show-men, dos animadores de programas religiosos, do "rock evangélico", das músicas badaladas por um ritmo sensual.
Mais do que nunca é preciso tocar a trombeta em Sião e condenar a idéia de que precisamos imitar o mundo para atrair o mundo. A música do mundo tem entrado nas igrejas, para vergonha nossa e para derrota nossa. O louvor que agrada a Deus precisa ser em espírito e em verdade. O louvor precisa ser bíblico, senão é fogo estranho. Davi, no Salmo 40, versículo 3, fala-nos sobre as balizas do louvor que agrada a Deus: "E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão estas coisa, temerão e confiarão no Senhor". Primeiro, vemos a origem deste cântico: "E me pôs nos lábios". Este louvor vem de Deus e não do homem. Segundo, vemos a natureza deste cântico: "E me pôs nos lábios um novo cântico". Não é um novo de edição, mas novo de natureza. É um cântico que expressa a marca da sua nova vida, liberta do tremendal de lama (v2). Terceiro, vemos o objetivo deste cântico: "... Um hino de louvor ao nosso Deus". Este cântico não é para entreter ou agradar o gosto e preferência das pessoas. Este cântico vem de Deus e volta para Deus. Deus é o seu alfa e o seu ômega. Quarto, vemos o resultado deste cântico: "Muitos verão estas coisas, temerão e confiarão no Senhor". O louvor bíblico leva as pessoas a temerem a Deus, a confiarem em Deus. O verdadeiro louvor leva as pessoas a se voltarem para Deus.
O louvor não é um espaço da liturgia. Louvor é a totalidade da vida. "Bendirei ao Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios" (Sl 34.1).
À luz destas coisas, é preciso dizer que avivamento não é mudança litúrgica, é mudança de vida. Avivamento não é histeria carnal, é choro pelo pecado. Deus não procura adoração. Ele procura adoradores.
Todavia, é preciso dizer que, embora o avivamento não seja mudança de liturgia, todo avivamento mexe com a liturgia. O avivamento desinstala a liturgia ritualista, cerimonialista, formalista, fria e morta e põe em seu lugar uma liturgia viva, alegre, ungida, onde há liberdade do Espírito, sem abandonar a ordem e a decência. Em épocas de avivamento, a liturgia é desingessada e o povo com alegria e liberdade do Espírito adora a Deus, em espírito e em verdade, sem regras rígidas pré-estabelecidas. Cada culto é um acontecimento singular, novo, onde há abertura para o que Deus deseja falar e fazer com o seu povo.
Hoje existem muitos cultos solenes, aparatosos, pomposos, mas estão mortos. Disse J. I. Packer no seu livro "Na Dinâmica do Espírito": "Não há nada mais solene do que um cadáver. Há cultos solenes que estão mortos". Embora o avivamento não seja mudança litúrgica, todo avivamento muda a liturgia, tornando-a bíblica, alegre, ungida, dirigida pelo Espírito de Deus. Devemos clamar como os puritanos: "Queremos liturgia pura".
2.4. Avivamento não é uma ênfase carismática unilateral.Muitas pessoas hoje estão limitando o avivamento a milagres, curas e exorcismos, sem observarem a abrangência global da doutrina pneumatológica. Este é um sério perigo. Toda vez que super-enfatizamos uma verdade em detrimento de outra, nós produzimos deformações e distorções nesta verdade.
Deus pode e faz maravilhas, curas e prodígios extraordinários quando Ele quer. Ele é soberano. Ninguém pode deter a sua mão. Ninguém pode ser o conselheiro de Deus. Ninguém pode instruir a Deus e dizer o que Ele pode e o que Ele não pode fazer. Ninguém pode obstaculá-lo nem ensinar-lhe qualquer coisa. Ele faz tudo quanto Ele quer, como quer, onde quer, quando quer, com quem quer. "Ele faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Ele não obedece à agenda dos homens. Ele não se deixa pressionar. Ele é livre.
Entretanto, esta não é a ênfase do avivamento. A igreja hoje está correndo mais atrás de sinais do que atrás de santidade. A igreja hoje empolga-se mais com milagres do que com vida cheia do Espírito. A igreja hoje anseia mais as bênçãos de Deus do que o Deus das bênçãos. A igreja hoje busca mais uma vida antropocêntrica do que teocêntrica.
Avivamento não é efervescência carismática. Uma igreja pode ter todos os dons sem ser uma igreja avivada. Avivamento não é conhecido pelos dons do Espírito, mas pelo fruto do Espírito.
A igreja de Corinto possuía todos os dons, todavia, era uma igreja imatura e bebê espiritualmente. Naquela igreja profundamente carismática, havia divisões, cismas, brigas, partidos, contendas, imoralidade e irmãos levando outros irmãos aos tribunais mundanos. Havia falta de compreensão acerca do casamento e da liberdade cristã. Naquela igreja a ceia do Senhor estava sendo incompreendida, os dons estavam sendo usados erradamente, a ressurreição dos crentes estava sendo negada, e a cooperação financeira com os pobres negligenciada.
É verdade que, em épocas de avivamento, os dons são buscados e exercidos para a glória de Deus e a edificação da igreja, mas a ênfase carismática não é sinônimo de avivamento.
2.5. Avivamento não é modismo.Muitos crentes, por desconhecimento, se posicionam contra o avivamento porque acham que ele é a mais nova onda da igreja. Acham que avivamento é uma coqueluche moderna e uma inovação sem nenhum respaldo bíblico e histórico.
Certamente, aqueles que assim pensam não estudam com critério a Bíblia nem a história da igreja. Os pontos culminantes da igreja aconteceram em épocas de avivamento. Desde o Antigo Testamento que esta é uma verdade incontestável. É só olhar para os grandes despertamentos na época de Ezequias, de Josias e de Neemias. É só ver o grande avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. É só ver o que Deus fez na Reforma do Século XVI, na Inglaterra, no século XVIII e em outros grandes avivamentos da história. Certamente, avivamento não é uma onda, não é um modismo. Ele possui firmes lastros históricos. Ele é nossa herança e nosso legado e deve continuar sendo nossa aspiração e nossa busca constante.
2.6. Avivamento não é uma visão dicotomizada da vida.Muitas pessoas, quando começam a buscar avivamento, saem da realidade e enclausuram-se nos castelos inexpugnáveis de uma espiritualidade isolada e monástica. Tornam-se tão "espirituais" que já não sabem mais conviver com a vida, isolam-se, fazendo da vida uma caverna de fuga. Querem sair do mundo em vez de serem guardados do mal. Dividem a vida entre sagrado e profano, corpo e alma, matéria e espírito. Acham que Deus está interessado apenas nas coisas espirituais. Acham que Deus só olha para a vida de trabalho na igreja, sem observar os negócios, a família, o trabalho, os estudos e a vida do dia-a-dia com o mesmo interesse.
Esta não é a visão bíblica nem a visão do verdadeiro avivamento. Tudo em nossa vida é vazado pelo sagrado. Toda a nossa vida é cúltica. Todo o nosso viver é litúrgico. O grande avivalista John Wesley lutou pelas causas sociais na Inglaterra ao mesmo tempo que pregou sobre avivamento. Finney pregou ardorosamente contra a escravidão nos EUA no século passado ao mesmo tempo que foi o maior avivalista do seu país. João Calvino atacou com veemência os juros extorsivos em Genebra. O avivamento sempre traz profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e morais. O avivamento não leva a igreja à fuga, mas ao enfrentamento.
2.7. Avivamento não é campanha de evangelização.Não podemos confundir avivamento com campanhas evangelísticas. Avivamento é para a igreja, pessoas que já têm vida; evangelização é para o mundo, pessoas que estão mortas em delitos e pecados. Avivamento é para crentes nascidos de novo; evangelização é para pecadores inconversos. Na evangelização, a igreja trabalha para Deus; no avivamento, Deus trabalha para a igreja. Na evangelização, a igreja vai aos pecadores; no avivamento, os pecadores correm para a igreja. Na evangelização, os pregadores apelam aos pecadores; no avivamento, os pecadores apelam aos pregadores.
III - O Padrão Bíblico de Avivamento:
Podemos definir o avivamento bíblico em dois sentidos distintos:
3.1. O sentido estrito de avivamento.Estritamente falando, avivamento é algo que acontece unicamente no meio do povo de Deus. O Espírito Santo renova, reaviva e desperta a igreja sonolenta. É revitalização onde já existe vida. Ou, como disse Robert Coleman, é "o retorno de algo à sua verdadeira natureza e propósito" (7).
Comentando um pouco mais sobre o sentido estrito de avivamento, diz o Dr. Martin Lloyd-Jones:
É uma experiência na vida da Igreja quando o Espírito Santo realiza uma obra incomum. Ele a realiza, primeiramente, entre os membros da Igreja: é um reviver dos crentes. Não se pode reviver algo que nunca teve vida; assim, por definição, o avivamento é primeiramente uma vivificação, um revigoramento, um despertamento de membros de igreja que se acham letárgicos, dormentes, quase moribundos (8).
Quando há esse impacto da obra do Espírito de Deus na vida da igreja, os resultados imediatos do avivamento são sentidos no povo de Deus: senso inequívoco da presença de Deus; oração fervorosa e louvor sincero; convicção de pecado na vida das pessoas; desejo profundo de santidade de vida e aumento perceptível no desejo de pregação do evangelho. Em outras palavras, a igreja amortecida e tristemente doente é a primeira a ser beneficiada pelo avivamento.
3.2. O sentido amplo de avivamento.Como a própria expressão define, neste sentido não apenas a igreja, mas a sociedade não-cristã também é beneficiada pelo avivamento. Isto acontece porque, além da atuação soberana do Espírito Santo no mundo, na igreja passa a existir uma conscientização profunda de sua missão; isto é, a missão integral de servir o mundo evangelística e socialmente. No avivamento a igreja vive a missão para a qual foi chamada.
A sociedade não-cristã, por sua vez, volta-se para Deus em resposta ao evangelho. Acertadamente o Dr. Héber de Campos comenta que "o reavivamento começa na igreja e termina na comunidade maior onde ela vive. Os efeitos do reavivamento são muito mais perceptíveis nas mudanças morais que acontecem na região ou num país onde ele acontece. Ele não se limita simplesmente aos membros das igrejas atingidas pela obra de Deus. Ele causa impacto em toda a comunidade onde a igreja de Deus está inserida" (9).
Em suma, as duas características principais do avivamento são 1) o extraordinário revigoramento da igreja de Cristo e 2) a conversão de multidões que até o momento estiveram fora dela na indiferença e no pecado.
3.3. Avivamento e a Bíblia.Aqui também abordaremos dois aspectos essenciais do avivamento.
1) O padrão bíblico de avivamento é a BíbliaPor mais simplória e pleonástica que esta declaração pareça ser, ela é tão autêntica e singular como dois e dois são quatro. Estamos falando do único padrão inerrante e infalível de avivamento: a Bíblia.
Uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela que nos pode dar a direção certa deste assunto. A relação entre a Bíblia e o avivamento é tão intrínseca que é impossível um avivamento de verdade sem que a Bíblia faça parte dele.
Além disso, numa época de tantos extremos como este em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde aqueles que vêem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento, até àqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação humana sem respaldo bíblico. É necessário, mais do que nunca, recorrermos à lei e ao testemunho.
Permita-me ilustrar o que queremos dizer por "extremos". Edwin Orr (10), uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões de avivamentos. Uma delas dizia: "Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr menciona este fato para relatar um desses extremos em que a palavra "avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o avivamento fosse produzido simplesmente pelo desempenho humano com data e hora marcadas.
Voltando ao lugar da Bíblia no avivamento, é importante salientar que ela foi, é e sempre será a espada do Espírito Santo em todo avivamento bíblico. Não existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na Bíblia e na história da igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre persuadidos com e para a Bíblia. Avivamento onde a Bíblia não está presente não passa de um mero pentecostalismo convencional.
"Um reavivamento", diz o Dr. Héber de Campos, "que é produto da obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus passa ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus" (11).
2) O padrão bíblico de avivamento está na BíbliaOs primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o nome do Senhor" (Gn 4.26) (12). O nome Enos quer dizer fraco ou doente. O que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina" (13). À parte desta indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da raça humana. O relato subseqüente do dilúvio ilustra de modo dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.
Depois temos os patriarcas que por vários séculos lideraram o povo de Deus. Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia, eles agiam como a força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8; 32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).
No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js 7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31).
O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é inevitável. Então, após longos anos de opressão, o povo se arrepende e clama ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período, sob a direção de Samuel (I Sm 7.1-17).
Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um avivamento (2 Sm 6.12-23). A dedicação do templo, no início do reinado de Salomão, é outro grande exemplo (I Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos dias de Asa (I Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (I Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2 Rs 11.4-12.16). Outro poderoso despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2 Rs 18.1-8). Por fim, a descoberta do livro da lei, durante o reinado de Josias, dá início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2 Rs 22,23; 2 Cr 34,35).
Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os judeus a interromperem a reconstrução do templo, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais atenção à lei (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31).
Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.
No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa de receberam a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação desse dia - o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo, redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a proclamar o Evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)" (14).
O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá, são muitos os relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na história da igreja, como por exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI, na Inglaterra no século XVIII, entre os negros Zulus da África do Sul na década de 60 e na Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.
Que Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador" que nos purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.
NOTAS:(1) Cf. D. M. Lloyd-Jones, DO TEMOR À FÉ (2ª ed. São Paulo: Editora Vida, 1987), pp. 73,4. Veja também, de Gerard Van Groningen, AVIVAMENTO SOB UM PRISMA VÉTERO-TESTAMENTÁRIO no site www.ipcb.org.br.(2) Os termos "avivamento", "reavivamento", "renovação", "despertamento", "vivificação", "reviver" e "tornar a viver" são usados no mesmo sentido.(3) O significado literal da expressão hebraica "vivificar-nos", do Salmo 85.6, é "causa-nos viver", onde se reconhece que a vitalidade espiritual depende inteiramente de Deus.(4) O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, dá a este Salmo o sugestivo título: UMA ORAÇÃO PEDINDO REAVIVAMENTO.(5) Para um ponto de vista diferente, veja a obra do Dr. Paul E. Pierson, A HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS, material apostilado pela Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina - PR.(6) Uma posição semelhante foi apresentada pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira, em entrevista ao Jornal Brasil Presbiteriano (Abril/94, p. 12): "Confunde-se avivamento com atitude pessoal e inclusive corporal (física), com expressão emocional, levantar de mãos, etc. Essas atitudes em si não são propriamente prejudiciais. Todavia, pela confusão que se faz a doutrina sai perdendo. Há uma superficialidade doutrinária muito grande, porque se dá ênfase excessiva ao louvor, a sermões eletrizantes, a práticas pentecostais, quando avivamento é tão somente uma consciência clara e profunda da vontade de Deus (que é doutrinária) e uma disposição plena de obediência (que é prática)".(7) R. Coleman, A CHEGADA DO AVIVAMENTO MUNDIAL (São Paulo: CPAD, 1996), p. 18.(8) D. M. Lloyd-Jones, OS PURITANOS: SUAS ORIGENS E SEUS SUCESSORES (São Paulo: PES, 1993), pp. 15,6. Veja também, do mesmo autor, o excelente livro AVIVAMENTO (São Paulo: PES, 1992) 320 pp.(9) Héber C. Campos, CRESCIMENTO DA IGREJA: COM REFORMA OU COM REAVIVAMENTO? In Fides Reformata, Vol I, Nº 1 (São Paulo: 1996), pp. 44,5.(10) Citado por Brian H. Edwards em REVIVAL! A PEOPLE SATURED WITH GOD (England: Evangelical Press, 1994), p. 25.(11) H. C. Campos, op. cit., p. 45.(12) R. Coleman, op. cit., p. 53.(13) Idem.(14) Idem, p. 61.
Rev. Josivaldo de França Pereira - Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (I.P.B.) em Santo André - SP. Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (J.M.C. - SP), Licenciado em filosofia pela F.A.I. (Faculdades Associadas Ipiranga - SP) e mestrando em missiologia pelo Seminário Teológico Sul Americano (S.T.S.A.) em Londrina - PR.
www.monergismo.com

A PROMESSA DA VERDADEIRA PROSPERIDADE

Leitura Bíblica: Salmos 73.1-3, 5, 16-20, 26-28 .

"Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6.33).

INTRODUÇÃO
Estudaremos, nesta aula, uma das promessas divinas que tem sido mais distorcidas na atualidade: a promessa de prosperidade, que é, antes de mais nada, uma promessa espiritual e não material, como muitos estão a pregar.
Uma das principais ervas daninhas que têm se alastrado no “jardim fechado” da Igreja, nestes dias tão difíceis que antecedem à volta de Cristo, é a chamada “teologia da prosperidade”, que nada mais é que uma doutrina distorcida a respeito de Deus, de forte conteúdo materialista, que tem seduzido muitos crentes e os feito desviar da verdade.
O apóstolo Paulo foi claríssimo ao afirmar que se esperarmos em Cristo só para as coisas desta vida seremos os mais miseráveis de todos os homens (I Co.15:19). É esta a triste situação espiritual dos milhões que têm procurado Jesus única e exclusivamente para terem a “prosperidade” apregoada pelos falsos mestres da atualidade, eles mesmos escravos da ganância (II Pe.2:3).
O que se apregoa hoje em muitos púlpitos sobre as riquezas materiais nada tem a ver com os ensinamentos bíblicos acerca do tema. Afinal, o que é a verdadeira prosperidade?
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
O que é a Teologia da Prosperidade. Há até pelo menos duas décadas, a pregação evangélica, principalmente pentecostal, enfatizava que os cristãos não deveriam se apegar às riquezas materiais, aos interesses terrenos, pois Jesus nos ensinou que aqui somos apenas forasteiros(1Pe 2:11), pois o nosso lugar é o Céu(João 14:1-3), e que não deveríamos ajuntar tesouros aqui(Mt 6:19,20; Lc 12:23). Mas, veio a Teologia da Prosperidade pregando que o cristão deve ser próspero financeiramente e viver sempre livre de qualquer enfermidade. Quando isto não acontece, é porque ele deve estar vivendo em pecado, não tem fé ou está vivendo sob o domínio do diabo. Chegam ao ridículo de dizer que Jesus nasceu de uma virgem zero km, entrou em Jerusalém montado num jumento zero km e, em sua morte, foi sepultado num túmulo zero km. Como se vê, é uma interpretação forçada da Palavra Deus para se justificar erros, heresias e interesses duvidosos.
Os Teólogos da prosperidade aqui no Brasil estão ensinando que todos os cristãos devem ser ricos financeiramente, ter o melhor salário, a melhor casa, o melhor carro, uma saúde de ferro, e afirmando que toda enfermidade vem do diabo. E que se o cristão não vive essa vida pregada por eles, é falta de fé ou que há pecado em sua vida, desprezando, assim, a soberania de Deus.
A soberania de Deus é a doutrina que afirma que Deus é supremo, tanto em governo quanto em autoridade sobre todas as coisas, mas no orbe da confissão positiva, ela não é levada muita a sério, pois os verbos que imperam são: exigir, decretar, determinar, reivindicar, ao invés de pedir, rogar, suplicar, etc. Jesus, porém, nos ensinou a pedir e não exigir(Ler Mt 7:7; Lc 11:9; João 16:24). Veja ainda: Sl 27:4; Pv 30:7; Zc 10:1.
A Teologia da Prosperidade tem feito ricos, pobres da presença de Deus e dos pobres, ricos sem Deus. Por que? “Porque o [amor ao dinheiro] é raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores”(1 Tm 6.10). Paulo talvez fosse rico antes, mas depois que teve contato com Cristo viveu sem riquezas: "... aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas tenho experiência, tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade"(Fp 4:11-12).
Veja o que o Espírito Santo nos ensina sobre o desejo de se tornar rico, usando o apóstolo Paulo: “Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição” (1 Tm 6.9).
Divergência entre a Teologia da Prosperidade e a Bíblia – Dentre várias divergências, destacamos quatro, a saber:
1) “A Teologia da Prosperidade declara que Deus não diz ‘não’ às orações de seus filhos”. Refutação Bíblica: Dt 3.23-29; 2 Sm 12.15-23; 2 Co 12.7-9.
2) “A Teologia da Prosperidade diz que devemos orar apenas uma vez por alguma coisa. A oração repetida significa falta de fé”. Refutação Bíblica: Mt 26.44; 2 Co 12.8; Gn 25,21; Lc 1.13.
3) “A Teologia da Prosperidade ensina que sofrimento significa falta de fé”. Refutação Bíblica: 2Co 4.8,9; 11.23-29.
4) “A Teologia da Prosperidade afirma que pobreza não combina com nossa posição de filhos do Rei”. Refutação Bíblica: 2Co 8.9; Tg 5.1,6; 2 Tm 6.9,10,17-19.
É necessário estarmos conscientes de que o conceito de prosperidade não pode ser reduzido à posse de dinheiro e bens materiais. Existem pessoas que possuem muito dinheiro sem, contudo, serem prósperas. Existe um alto índice de dependência de drogas, prostituição, divórcios e suicídios entre as pessoas da classe alta nas sociedades em todo mundo. Como disse um certo poeta português: "A verdadeira prosperidade é a prosperidade moral e o que passar disso é simplesmente uma questão de aquisição de bens materiais".
É necessário estarmos conscientes de que ser pobre, perseguido ou estar enfermo, não significa necessariamente estar em pecado. Veja as seguintes passagens da Bíblia: ” Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra”(Dt 15:11). Disse Jesus: ” Porquanto sempre tendes convosco os pobres...”(Mt 26:11). “O que oprime o pobre insulta àquele que o criou, mas o que se compadece do necessitado o honra”(Pv 14:31). “Melhor é o pobre que anda na sua integridade do que o perverso de lábios e tolo”(Pv 19:1).” O que o homem mais deseja é o que lhe faz bem; porém é melhor ser pobre do que mentiroso”(Pv 19:22). ” O rico e o pobre se encontram; a todos o Senhor os fez”(Pv 22:2). ” Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta”(Zc 9;9). “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”(Ap 3:17).
REFUTAÇÕES BÍBLICAS AO “EVANGELHO DA PROSPERIDADE” - Os Teólogos da Prosperidade dizem que por ser filho de Deus, temos o "direito" de termos o que quisermos! Vejamos as refutações bíblicas:
1. Salomão não pediu riquezas... (1 Rs 3.9).
2. O mendigo Lázaro era salvo, porém...( Lc 16.20-23).
3. Jesus não tinha onde reclinar a cabeça( Mt 8.20).
4. Paulo viveu em constante pobreza( Fp 4.11).
5. Porque Jesus pediu ao rico para desfazer-se dos bens?( Lc 18.22).
6. Os que querem ficar ricos caem em tentações(1 Tm 6.9).
7. Não podemos servir a Deus e as riquezas(Lc 16.13).
8. Igreja Apostólica não tinha membros que se diferenciassem entre si nas posses(At 2.44-45).
9. A recomendação para os discípulos: não ter 2 túnicas...(Mt 10.9-10).
10. A oração que não é atendida: para gastar no luxo(Tg 4.3).
11. Na oração do Pai Nosso não há indicação de pedirmos além do necessário ("de cada dia..." Mt 6.11).
12. O servo de Eliseu pegou lepra pela cobiça...(2 Rs 5.20-27).
13. Cobiça como pecado(Lc 12.15-21, 1 Jo 2.16).
14. "Não amar as coisas do mundo", significa não desejá-las! (1 Jo .15).
15. "Não ajunteis tesouro na terra..." (Mt 6.19).
16. José e Maria eram humildes. Sua oferta de sacrifício no templo foi um par de rolas (Lc 2.22-24), a mais simples oferta (veja Lv 12.6-8).
17. A fascinação da riqueza sufoca o crescimento espiritual(Mc 4.19).
18. O amor ás riquezas, raiz dos males ( Tm 6.10).
19. Pedro e João não tinham oferta para dar ao paralítico(At 3.6).
20. Transitoriedade e vaidade (Pv 23.5, Ec 2.18, 5.10) .
21. Pobres no mundo, mas ricos para Deus (Tg 2.5).
22. Moisés abandonou sua riqueza e "status", para servir a Deus e ao Seu povo( Hb 11.24-26).
23. Prosperidade como resultado da obediência, e não dos "direitos"(Dt 7.12-13, 11.13-15).
24. A cobiça levou o povo de Israel a desobedecer e ser derrotado(Js 7.1-26).
25. Deus usou Gideão, da família mais pobre de Manassés, para libertar Israel(Jz 6.15).
26. Jó, um justo, passou por um período de pobreza total(Jó 1.9-12).
27. "Ganhar o mundo inteiro" ou "perder sua alma"? (Mc 8.36). Veja também Lc 12.34.
28. Em Jerusalém, a maioria dos crentes era muito pobre, mas Paulo não os tratou com desdém, mas chamou-os de santos: “Porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia levantar uma oferta fraternal para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém”(Rm 15:26).
A Bíblia ensina que nem a pobreza nem a riqueza são virtudes. A Palavra de Deus, aliás, em momento algum trata a pobreza com desdém. “A vida do homem não se constitui dos bens que possui” (Lc 12.15). Não devemos ir para um extremo, nem para o outro – veja as palavras sábias de Agur em Pv 30.8,9. Qualquer extremo é perigoso.
É verdade que a riqueza é bênção de Deus desde que adquirida de maneira honesta e não vise exclusivamente aos deleites deste mundo (Tg 4.3). Caso contrário: seremos escravizados por ela. Mas também é bom saber que a pobreza não é símbolo de maldição (Pv 17. l; l Tm 6.7-9). A Bíblia condena o amor ao dinheiro (l Tm 6.10), pois a avareza é uma forma de idolatria (Cl 3.5). Tudo aquilo que o homem ama mais do que a Deus toma-se o seu deus (Fp 3.19).
Portanto, a Teologia da Prosperidade é diabolicamente perversa e mentirosa, porque induz os filhos de Deus a buscar a riqueza, por concluírem ser esta tão importante quanto a salvação.
A Prosperidade Fatal - Nos nossos dias, este é um dos principais motivos de apostasia. O apego aos bens materiais, a troca dos bens espirituais pelos bens materiais tem sido uma das grandes ciladas lançadas contra os crentes. Muitos crentes passaram a encarar a sua fé como um meio de enriquecimento, como um mecanismo de prosperidade material e, com isto, desviam-se dos objetivos traçados pelas Escrituras Sagradas. Não negamos que Jesus tenha bênçãos materiais para a sua Igreja, mas, definitivamente, não é para isto que a Igreja foi constituída e não é este o propósito para ela estabelecido pelo Senhor. Quando mudamos a agenda divina de salvação de almas e aperfeiçoamento dos santos pela agenda de busca de prosperidade, estamos nos encaminhando, perigosamente, para a apostasia. O materialismo é uma das principais marcas do espírito do Anticristo, cujo reinado sempre beneficiará os mercadores (cfr. Ap.18), que serão os que mais lamentarão a queda de seu sistema iníquo.
Não é à toa que a primeira expressão da igreja de Laodicéia, que é o retrato da igreja apóstata dos dias do arrebatamento, seja “rico sou e de nada tenho falta” (Ap.3:17), a mostrar que esta igreja tinha, em primeiro plano, a preocupação com as riquezas, com os bens materiais. Urge modificarmos este pensamento que está incrustado na Igreja, levando muitos à apostasia. Muitos não pensam mais nas almas, mas nos dízimos e ofertas; outros não estão preocupados com a obra de Deus, mas com os cifrões dos seus salários. Muitos não querem saber de buscar a Deus para ter bênçãos espirituais, para serem instrumentos de salvação e de aperfeiçoamento de outros crentes, mas querem enriquecer com campanhas, sacrifícios, fogueiras santas etc. São pessoas que vivem como os gentios, que têm as mesmas preocupações e propósitos que os gentios e que, portanto, pertencem a este vasto grupo onde o amor está esfriando pelo aumento da iniqüidade e que, buscando a riqueza material, não vê que se comporta como um pobre, desgraçado e nu. Vigiemos e não entremos nesta onda, que nos levará para a perdição eterna!
AFINAL, O QUE É A VERDADEIRA PROSPERIDADE? Para decepção de muitos, a promessa da verdadeira prosperidade não assume características puramente materiais. Pelo contrário, a idéia de “prosperidade” abrange, em primeiro lugar, aspectos espirituais. “Prosperidade” significa, em primeiro lugar, um estado de felicidade, de satisfação, algo que nos faz lembrar da paz interior, de que tratamos na aula anterior, até porque, como vimos, algumas vezes a palavra “prosperidade” é utilizada para a tradução de “shalom”. A satisfação não se dá quando se tens bens materiais. Muito pelo contrário, a maior satisfação de alguém está na comunhão, na paz, na alegria decorrente do perdão de seus pecados e de ter habitando em si o Espírito de Deus. Portanto, a promessa da prosperidade não é a promessa de riquezas materiais, como muitos têm pregado, enganando a grande parte dos que cristãos se dizem ser.
A promessa de prosperidade, em seu aspecto material é prometida, em primeiro lugar, ao povo de Israel, como conseqüência do pacto firmado com ele seja no Sinai, seja nos montes Gerizim e Ebal (o chamado “pacto palestiniano” – Dt..27:12-13; Js.8:33-35). Tanto que a palavra “prosperidade” e seus derivados são encontrados quase que exclusivamente no Antigo Testamento e, nas duas vezes em que aparece em o Novo Testamento, esteja num contexto completamente alheio a promessas.
Promessas Nacionais - Temos, portanto, que as famosas bênççãos materiais de Dt.28:1-14, tão utilizadas pelos pregadores de prosperidade em os nossos dias, são promessas dirigidas ao povo de Israel, são promessas “nacionais”, que têm como destinatários os israelitas, como, aliás, fica bem claro logo no intróito da relação, em Dt.28:1, quando se vê que a promessa era para que Israel se exaltasse sobre todas as nações da Terra e que era o resultado da fidelidade à lei de Moisés, lei que, como bem sabemos, já não mais vigora na atual dispensação. Tem-se, portanto, que a aplicação das referidas promessas de prosperidade material ali previstas para a Igreja, em os nossos dias, é algo equivocado e que não encontra qualquer respaldo bíblico, sendo mais um engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente a todos quantos não conhecem a doutrina –“ para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro”(Ef.4:14).
Promessas Individuais - Em outras passagens, vemos que a prosperidade material é prometida a pessoas específicas, sendo, pois, verdadeiras promessas “individuais”, exclusivas para seus destinatários. Foi o caso de Salomão (I Rs.3:11-13), que recebeu a prosperidade material não porque a tivesse pedido, mas, sim, porque quis, antes, sabedoria, a verdadeira prosperidade, motivo por que, por ter agradado a Deus ao dar prioridade à sabedoria, recebeu, também, riquezas materiais (I Rs.3:5-10). Como se trata de promessas “individuais”, temos que tais promessas, igualmente, não podem ser consideradas como feitas a qualquer outra pessoa, sendo, também, engano querer fazer as pessoas crerem que, assim como Salomão, Abraão ou Ezequias, de igual modo, Deus tem algum compromisso de enriquecer este ou aquele servo seu, pelo simples de esta indivíduo ser fiel ao Senhor.
A Prosperidade material tem como propósito o engrandecimento do nome do Senhor - Em Dt.28:10, fica bem claro que o objetivo da prosperidade material prometida a Israel era fazer com que as nações, sobre as quais Israel se sobressairia, viessem a reconhecer que aquele era o povo de Deus. “E todos os povos da terra verão que é chamado pelo nome do Senhor e terão temor de ti”. O objetivo declarado do Senhor era o de ver o seu nome exaltado e glorificado pelas demais nações. Tanto assim é que, em havendo a desobediência por parte de Israel, sobreviriam maldições, inclusive a penúria econômico-financeira, maldições que tinham o mesmo propósito, o de mostrar a grandeza do Senhor, como se lê em Dt.28:37: “e serás por pasmo, por ditado, e por fábula entre todos os povos a que o Senhor te levará”.
Portanto, ainda que tais promessas fossem dirigidas à Igreja, o que não é o caso, também estariam equivocados os que as andam buscando para satisfação dos seus desejos, de seus caprichos, de sua ganância, pois, em momento algum, quis o Senhor que a prosperidade material servisse para agrado dos homens, mas única e exclusivamente para o engrandecimento do nome dEle. Não é por outro motivo que, no ocaso de sua vida, Salomão, a despeito de todo o seu riquíssimo patrimônio, tenha, publicamente, resumido a vida humana deste modo: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os Seus mandamentos, porque este é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec.12:13,14).
Temos, portanto, verificado que, à primeira vista, a promessa da prosperidade não se reduz ao aspecto material, que é uma promessa condicional e que, notadamente em seu aspecto material, é uma promessa dirigida ou ao povo de Israel, ou, então, a pessoas específicas, tendo como propósito o engrandecimento do nome do Senhor.
O verdadeiro significado de Prosperidade - Prosperidade” é o “bem-estar”, a “felicidade”, a “satisfação”, o “alívio”, o “conforto”, a “tranqüilidade”, o “resultado da condução com prudência”, como temos visto na análise dos textos bíblicos supra.
Ora, o que Deus deseja é o bem-estar do homem. Ainda no Éden, observamos que Deus pôs o homem no jardim para o lavrar e o guardar (Gn.2:15), mas, antes de ali pôr o homem, fez questão que o jardim tivesse tanto árvores agradáveis à vista como boas para comida (Gn.2:9). Neste gesto, o Senhor demonstrou, claramente, que seu objetivo era que o homem tivesse bem-estar físico e mental, que estivesse num ambiente em que pudesse ter satisfação, alegria, conforto e tranqüilidade. Ora, isto o Senhor fez ao primeiro casal, ou seja, é um propósito que se estende a toda a humanidade. No entanto, o homem pecou e, por causa disso, aquele ambiente de satisfação, conforto e tranqüilidade, passou a ser um ambiente penoso, de dificuldades, onde a sobrevivência não se daria mais por meio da satisfação, mas do suor do rosto, da dor (Gn.3:17-19). Por isso, a sobrevivência passou a ser algo advindo de sofrimento e esforço, não mais algo prazeroso, como era antes do pecado. Portanto, a prosperidade depende, pois, do perdão dos pecados e não é por outro motivo que o servo de Deus é sempre chamado de “bem-aventurado”, pois, como diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “bem-aventurado” é “aquele que goza de boa ventura, bem-afortunado, feliz”.
Para ser “bem-aventurado”, porém, é necessário que se tenha sido salvo pelo Senhor (Dt.33:29), salvação esta que se dá mediante o perdão dos pecados (Sl.32:1,2), a fé no Senhor (Sl.34:8; 40:4; 84:12) e a eleição de Deus para se chegar a Ele (Sl.65:4). Todos estes requisitos são satisfeitos pela Igreja e, portanto, se os salvos são chamados bem-aventurados, isto é a prova evidente de que a prosperidade também é uma promessa que se estende à Igreja.
No entanto, esta prosperidade, como temos visto, não abrange aspectos materiais, mas, sim, um estado espiritual de felicidade, de bem-aventurança. A prosperidade do salvo é o fato de ser bem sucedido naquilo que é fundamental para alguém: ter a vida eterna, ter a certeza de que o seu fim é o de habitar com o Senhor para todo o sempre.
Quando vemos a descrição dos “bem-aventurados” por parte do Senhor Jesus, no intróito do sermão do monte, que é conhecido como o “sermão das bem-aventuranças”, em momento algum, vemos o Senhor se referindo a bênçãos materiais, a posse de riquezas. O bem-aventurado é reconhecido pelo seu caráter, pelo seu comportamento, não pelos bens que possa ter. Ao encerrar as bem-aventuranças, aliás, o Senhor faz questão de dizer que a prosperidade abrange um grande galardão nos céus, que deveria ser o motivo de exultação e alegria para a Igreja (Mt.5:11).
Ainda no sermão do monte, dirigido à Igreja, Jesus faz questão de mostrar que o que levará os homens a glorificar a Deus por causa dos seus discípulos, não é, como ocorria com Israel, a prosperidade material, mas, sim, a presença de boas obras (Mt.5:16). Enquanto Israel engrandeceria o nome do Senhor por intermédio de bênçãos materiais (Dt.28:10), a Igreja levaria as nações a glorificarem a Deus pela sua conduta, pelo seu comportamento, por ser luz do mundo e sal da terra.
Vemos, pois, que o propósito existente na promessa da prosperidade, que é o engrandecimento do nome do Senhor, persiste em relação à Igreja, mas não mais em termos de bens materiais, mas, sim, em termos estritamente espirituais, em termos muito mais profundos, por meio da transformação do homem interior, por meio da nova criação. Não é por outro motivo que Paulo afirma que o que importa é que sejamos novas criaturas (Gl.6:15).
Portanto, a prosperidade prometida aos servos do Senhor não envolve a posse de bens materiais, pois o verdadeiro e genuíno servo de Deus, dotado de sabedoria que vem do alto (Tg.3:13,17), age como o sábio Agur, pedindo ao Senhor tão somente a “porção acostumada”, ou seja, o necessário para a sua existência digna, a fim de que, com muitas riquezas, não venha a rejeitar a Deus e, na miséria, não venha a ter de furtar para sobreviver (Pv.30:8,9).
É esta “porção acostumada” que o Senhor tem prometido aos seus servos e que consta em Mt.6:33: ” Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. “Todas estas coisas vos serão acrescentadas” significa que todas as coisas de que necessitamos para sobreviver nos serão dadas pelo Senhor se buscarmos primeiro o reino de Deus e a sua justiça. Bem ao contrário do que se ensina erroneamente na atualidade, Deus não prometeu à Igreja “todas as coisas”, mas, sim, “todas as coisas necessárias”. É, aliás, o que Jesus nos ensinou a pedir: “o pão nosso de cada dia” (Mt.6:11).
Esta prosperidade é uma promessa divina, destinada à Igreja, condicionada à obediência e que se encontra estampada na expressão do salmista: “Fui moço e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão” (Sl.37:25).
Quantos testemunhos temos ouvido, ao longo dos anos, de pessoas fiéis ao Senhor que, apesar do desemprego e das necessidades materiais, tiveram a experiência de não lhes faltar o necessário para a sobrevivência e de terem sido supridas sem que, para tanto, tivessem de apelar à mendicância. Esta é a promessa da prosperidade em seu aspecto material em relação à Igreja: a da suficiência do necessário para a sobrevivência, sem humilhação, sem que se tenha de recorrer à mendicância.
Não tem cabimento a afirmação de que, para ter a promessa da prosperidade se faz necessário que a pessoa seja um contribuinte na obra de Deus, seja um dizimista - Não resta dúvida de que o contribuinte na obra de Deus é abençoado pelo Senhor, porque o Senhor ama ao que dá com alegria (II Co.9:7), mas daí a dizer que a condição para ter o suficiente para viver (ou para ser rico e bilionário, como dizem os enganadores), seja necessário primeiro contribuir, dar o dízimo ou, então, “dar o seu tudo” nas fogueiras santas da vida, tem-se uma abominável distorção das Escrituras Sagradas, distorção esta que não ficará imune às severas punições divinas àqueles que falsificam a sua Palavra.
A prosperidade prometida pelo Senhor está condicionada única e exclusivamente à justiça, à obediência da pessoa à sã doutrina. Deus promete a prosperidade ao justo, como se vê no Sl.1 e no Sl.37:25. O texto sagrado fala em justo, não em contribuinte ou dizimista. Não existe um “toma-lá-dá-cá”, uma barganha econômico-financeira. Absolutamente não!
Quando se abrem os textos bíblicos relacionados com dízimos, contribuições e ofertas, em momento algum vemos que Deus condiciona a prosperidade a um prévio doar da parte do homem, como se Deus fosse um mendigo, um necessitado. O texto de Malaquias, tão utilizado para estes fins, não serve para este objetivo. Primeiro, o texto está dirigido a Israel, sendo, mais uma vez, uma promessa “nacional”, inaplicável à Igreja e, o que é mais grave, o profeta denuncia, em primeiro lugar, a desobediência à lei (Ml.3:7), isto é, a injustiça, para, então, dizer que ocorria um roubo quando não se traziam os dízimos à casa do tesouro. Mas não é só! Caso os israelitas voltassem a dizimar, o Senhor lhes daria uma bênção tal que lhes traria “a maior abastança, ou seja, Deus não prometeu tornar Israel bilionário, mas teria ele o suficiente para ter uma existência digna, que seria louvada entre as nações, que os chamariam de “bem-aventurados” (Ml.3:11). Vemos, pois, todas as características de uma promessa “nacional”, mas que está vinculada à justiça e à abastança. Assim, ainda que se transfira tal promessa à Igreja, não é ela, em hipótese alguma, um compromisso divino para o enriquecimento desmedido nem tampouco uma dispensa de observância da sã doutrina.
Devemos contribuir financeiramente para a Igreja porque reconhecemos que Deus é o Senhor, que todas as coisas são dEle e que Ele é o soberano, inclusive sobre o nosso patrimônio (Gn.14:20; Sl.24:1; Mt.23:23), mas não porque queiramos enriquecer ou entendamos que, assim fazendo, Deus terá de nos enriquecer, pois isto, além de não ser agradável a Deus, é demonstração de impiedade, de avareza, de ganância e, assim sendo, além de não alcançarmos qualquer enriquecimento, pois isto não está na Bíblia e Deus tem compromisso apenas com a Sua Palavra (Jr.1:12), estaremos demonstrando toda a nossa impiedade, estaremos provando que somos idólatras (Cl.3:5), testificando contra nós mesmos que estamos destinados a ficar de fora da cidade santa (Ap.21:8; 22:15), ante a evidência de nossos frutos maus (Mt.7:19,20).
A Prosperidade significa êxito, triunfo - A prosperidade verdadeira é o triunfo, o êxito em alcançar o fim da nossa fé: a salvação da nossa alma (I Pe.1:9).
Eis o motivo pelo qual Asafe, quando via apenas os bens materiais acumulados pelos ímpios, quase se desviou da fé (Sl.73:2), mas, ao entrar no santuário de Deus, pôde entender o fim(Sl.73:17), ou seja, o verdadeiro triunfo, o verdadeiro êxito, que é o de obter a salvação da vida na pessoa bendita de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Somente neste fim, diz o profeta Malaquias, veremos a diferença entre o justo e o ímpio (Ml.3:18), entenderemos quem, na verdade, é o exitoso, o triunfante, pois de que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Mc.8:36).
COMENTÁRIOS DOS TÓPICOS PROPOSTOS
I. PORQUE OS ÍMPIOS PROSPERAM
1. A decepção de Asafe. O Salmo 73 retrata com fidelidade a forma como muitos de nós nos portamos ao ver a prosperidade dos ímpios, enquanto no meio cristão muitos têm de lutar de sol a sol para ganhar o pão de cada dia (Mt 6.11). Ficamos decepcionados, melindrados, a ponto de quase esfriarmos na fé (vv. 2,16). Isso porque na maioria dos casos nossa expectativa quanto à prosperidade não é fruto de um desejo legítimo, mas da cobiça daquilo que os outros possuem (v.3. Gl 5.26; Tg 3.14-16).
Asafe sentiu na própria carne a inveja de ver a prosperidade dos ímpios a ponto de os seus pés quase se resvalarem no abismo da incredulidade. "Pouco faltou", escreveu ele no v.2. Ele ficou perplexo ao considerar essa prosperidade dos pecadores uma "injustiça" contra os filhos de Deus.
2. O questionamento de Asafe. Asafe produziu suas justificativas, como sempre fazemos em nossos próprios arrazoados. Para o salmista, tais indivíduos não tinham apertos em sua morte (Sl 73.4), não eram afligidos pela necessidade do trabalho de cada dia ou por qualquer outra circunstância. Viviam cercados de segurança, desfrutavam da abundância de seus bens, mas não obstante serem pessoas violentas, presunçosas, em cujo coração maquinavam sempre o mal (vv. 4-16; Lc 12.15-21). Lembremo-nos a princípio que o ímpio tem a riqueza como um fim em si mesmo e não como um meio, como deve ser (1 Tm 6.17-19).
3. A descoberta de Asafe. Asafe não permaneceu na sua angústia, nem na murmuração. É tanto que, antes de descrever seus sentimentos negativos sobre a prosperidade dos ímpios, fez uma impactante declaração: "Verdadeiramente, bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração" (v.1). Em outras palavras, ele já obtivera a resposta para as suas dúvidas e o que agora expunha eram as reflexões do seu passado, consoante à forma verbal pretérita que aparece no (v.3): "eu tinha".
Assim, quando Asafe entra no santuário de Deus, o soberano Rei da Glória, os fatos se esclarecem (v.17). Ele percebe a transitoriedade da vida e Deus lhe traz à memória que os ímpios vivem em lugares escorregadios, são, eventualmente, tomados pelo pânico, não desfrutam a paz que aparentam e, ao final, como um sonho, desaparecerão (vv.18-20). Ou seja, a prosperidade material é fugaz, efêmera, e não assegura a quem quer que seja qualquer tipo de vantagem na eternidade nem a posse da vida eterna (Mt 19.16-21). Tudo quanto se acumula na terra, aqui ficará (Mt 6.19-21; Sl 39.6; 49.16,17).
II. O SIGNIFICADO DA VERDADEIRA PROSPERIDADE
1. Deus é o nosso Supremo Bem. O salmista Asafe afirma que reversamente aos ímpios, ele está de contínuo com Deus por quem é permanentemente guiado, para, ao fim, ser por Ele recebido em glória (vv.23,24). Haverá maior riqueza do que esta? Afirma ele: "tu me seguraste pela mão direita", e não pela mão esquerda, afirmando com esta figura de linguagem que Deus sempre nos conduz de maneira certa e pelos lugares certos (Sl 23.1-3).
O versículo 25 expressa a verdadeira prosperidade do homem: Deus como o seu Supremo Bem, assim como o seu mais sublime desejo. É o mesmo anseio de Davi (Sl 42.1,2) e de outros fiéis da história que se sentiram inquietos pela necessidade da presença do Deus vivo! Que outro bem maior pode o homem ter além de Deus?
2. Deus é a fonte da verdadeira prosperidade (v.26). Tudo começa e termina em Deus, pois fomos criados para a sua glória! Tudo pode faltar, a vida esvair-se, mas Deus é a nossa herança para sempre (vv. 26-28). Ele é a fonte da verdadeira prosperidade!
Assim, tudo o que temos precisa constituir-se em motivo para que o nome de Deus seja exaltado (1 Co 10.31). Este é o verdadeiro foco. Deus acima de todas as coisas. Podemos até desfrutar das riquezas materiais como fruto da capacidade que Deus dá a todos para administração da sua vida, mas tudo se restringirá às coisas terrenas (Dt 8.18).
III. COMO ALCANÇAR A VERDADEIRA PROSPERIDADE
1. O Novo Testamento e a verdadeira prosperidade. O Antigo Testamento contém muitas promessas relacionadas à prosperidade material de pessoas específicas e também do povo de Israel como nação (Gn 13.2; 39.2-5; Js 22.8; 1 Rs 2.3). Os conceitos que elas expressam permanecem válidos ainda hoje como verdades espirituais, mas isso não quer dizer que possuir riquezas materiais seja sinal de espiritualidade ou que estas sejam objeto de fé, como ensinam os arautos da falsa doutrina da prosperidade material.
Uma leitura honesta do Novo Testamento deixa claro que em nenhum momento ele estimula o acúmulo de bens ou aponta a prosperidade material como um fim permanente a ser buscado na vida do cristão. Ao contrário, as riquezas são descritas como algo que pode servir de obstáculo à comunhão com Deus e até mesmo levar à ruína espiritual (Mt 6.19-21; 10.23; 13.22; 1 Tm 6.9).
Os textos de Mateus 6.33 e Filipenses 4.13 são usados erradamente como base para a maléfica doutrina da prosperidade, os quais não respaldam o referido assunto. O primeiro, à luz de seu contexto, trata da provisão diária de cada um que busca a Deus em primeiro lugar, tal qual o Senhor provê diariamente o pão para as aves dos céus e as vestes para os lírios do campo. O segundo, também à luz de seu contexto, alude ao fato de o crente estar bem com Deus em qualquer circunstância, seja na fartura, seja na necessidade, desde que tudo esteja posto sob a perspectiva de Deus.
2. Vivendo a verdadeira prosperidade. Assim, a verdadeira prosperidade não é essa que vem sendo ultimamente apregoada como a grande conquista do Evangelho. Mas se os bens materiais não são o cerne da mensagem evangélica e nem a meta de vida do crente, pode ele possuir riquezas, sem que isso signifique pecado? É possível prosperar materialmente, mediante o uso da capacidade que Deus nos deu sob suas bênçãos, e desfrutar do bem desta terra?
A Bíblia fala de pessoas ricas no meio da igreja, mas adverte a que não ponham nas riquezas a sua confiança, sejam ricas em boas obras, generosas e prontas a repartir, tendo como sua verdadeira meta entesourar para a vida eterna (1 Tm 6.17-19).
CONCLUSÃO
Muitos têm tudo, até dinheiro em demasia, mas não têm o bem-estar. Vivem inquietos, atribulados, não tendo qualquer alegria ou contentamento verdadeiros, porque não fazem as coisas de acordo com a sã doutrina. Ser próspero é ter bem-estar em tudo o que se faz, ago muito diferente e muito melhor do que possuir bens materiais.
O homem verdadeiramente próspero é como a "árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem, e tudo quanto fizer prosperará" (Sl 1.3).
A verdadeira prosperidade é uma conseqüência da obediência do homem a Deus. O crente próspero, segundo o salmista, é alguém que não se compraz com a companhia dos ímpios, mas tem satisfação em obedecer a Escritura. Portanto, abandone o pecado e afaste-se do ímpio. Ame incondicionalmente as Sagradas Escrituras. Obedeça os ditames da Palavra do Senhor, e terás cumprido os primeiros passos à verdadeira prosperidade.
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Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD/Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista/Fortaleza-CE.
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Fonte de Pesquisa: PORTAL EBD - Comentário Bíblico do Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco. Bíblia de Estudo-Aplicação Pessoal. Bíblia de Estudo Pentecostal. O novo dicionário da Bíblia. Revista Ensinador Cristão.
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Este subsídio está disponível no site: http://br.geocities.com/ldeplourenco/EBD.html

O triunfalismo

Escrito por pentecostalismo em fevereiro 19, 2008


O triunfalismo é um dos principais ensinos da teologia da prosperidade que se aproveita do materialismo dominante dos nossos dias.

INTRODUÇÃO

- Na lição anterior, vimos as bases da chamada “teologia da prosperidade” e sua total discordância com a Bíblia Sagrada. Nesta lição, prosseguiremos o seu estudo, desta feita, avaliando um dos seus mais funestos efeitos e a sua forma de execução, a saber, o “triunfalismo”.

- O “triunfalismo” é um comportamento de sutileza típica: aproveitando-se das circunstâncias que estão ao redor do crente, o adversário levanta homens e mulheres que geram expectativas de um “paraíso na terra”, desviando os olhares do povo daquilo que é relevante e permanente: a vida eterna.

I – O FALSO PRESSUPOSTO DO TRIUNFALISMO

- Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra “triunfalismo” surgiu em nosso idioma em 1965, com o significado de “atitude, crença ou doutrina de que determinado credo religioso é superior a todos os outros”. Mas, em 1980, adquiriu novo significado, a saber, “atitude excessivamente triunfante; sentimento exagerado de triunfo”. Já na própria história da palavra, vemos como é recente a sua infiltração no meio do povo de Deus e como se teve uma distorção dos corretos ensinos provenientes das Escrituras Sagradas.

- A palavra “triunfalismo” advém de “triunfo”, palavra de origem latina, “triumphus”, que era o nome que recebia “a entrada solene em Roma de um general vitorioso”, e que, por extensão, passou a significar “vitória”. Em Roma, além da entrada solene em Roma, era costumeiro construir “arcos do triunfo”, ou seja, “…um tipo de monumento introduzido pela arquitetura romana originalmente utilizado como um símbolo da vitória em uma determinada batalha. Cada arco do triunfo romano, portanto, remete-se a uma batalha e a um imperador específicos na história romana e sua memória era celebrada através desta construção.…” (WIKIPEDIA. Arco do triunfo. http://72.14.203.104/search?q=cache:qJ8-DhbWAdgJ:pt.wikipedia.org/wiki/Arco_do_Triunfo+%22arco+do+triunfo%22&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=1 Acesso em 26 abr. 2006).

- Ao falarmos em “triunfalismo”, portanto, estamos nos referindo a “uma atitude excessivamente triunfante”, a um “sentimento exagerado de triunfo” que tem tomado conta da vida de muitos crentes, que, insuflados por pregadores de um falso evangelho, evangelho este baseado na “teologia da prosperidade”, passam a se considerar “super-crentes”, pessoas que se encontram acima das dificuldades e das adversidades da vida e que, portanto, confundem vida espiritual com prosperidade material e imunidade aos males desta vida.

- O “triunfalismo”, como vimos na lição anterior, é uma atitude típica dos chamados “movimentos da fé” ou “teologia da prosperidade”. Como tivemos ocasião de observar, esta falsa doutrina parte da noção de que, na criação do homem, Deus entregou ao homem o domínio sobre a criação terrena, dando-lhe, pois, “direitos” que ele pode reivindicar diante da Divindade. Tanto assim é que, quando do episódio da queda, o que teria havido seria um “legítimo direito” do homem em transferir a Satanás o domínio desta mesma terra. Evidentemente que Deus não iria permitir isto e, por isso, teria elaborado o plano da salvação do homem, a fim de que o homem pudesse, legalmente, reaver o que havia transferido ao diabo.

- Como Jesus veio ao mundo e cumpriu este desejo do Senhor, o homem que aceita a salvação teria retornado a esta qualidade de “detentor de direitos” diante de Deus e, por isso, não há que se falar em adversidades, dificuldades ou quaisquer outros problemas para o salvo, uma vez que ele tornou a ter os “direitos” que lhe advieram pela “nova criação”. É a partir deste conceito, pois, que surge, no bojo da “teologia da prosperidade”, um triunfalismo, vez que o salvo se sente um “mais do que vencedor”, alguém que “triunfou sobre o diabo” e que, por isso, não tem mais que “pagar coisa alguma ao diabo”, que tem, simplesmente, de “fazer o diabo desaparecer da sua vida, dos seus bens, da sua família e da sua saúde”.

- Não obstante, não é isso que dizem as Escrituras Sagradas. Relembrando o que já estudamos na lição anterior, vemos que, em primeiro lugar, o homem não é portador de qualquer “direito” diante de Deus. Quando da criação, Deus fez o homem um simples “mordomo”: o domínio sobre a criação terrena não significa, em absoluto, propriedade, mas, sim, poder de administração. Tanto assim é que o homem foi feito “imagem e semelhança de Deus”, ou seja, embora tivesse pontos de contacto com o Senhor, não fora equiparado a Ele, o que, a propósito, é reconhecido pelo próprio Satanás que, valendo-se desta diferença entre Deus e os homens, levou o primeiro casal a desejar ser igual a Deus (cf. Gn.3:5).

- Ao se verificar o texto de Gn.1:26, vemos que, no hebraico, o verbo utilizado para designar o “domínio” do homem é “radah”, ou seja, “governar”, “dar regras”, que, na versão grega da Septuaginta é “archétosan” (αρχέτωσαν), que também significa “governar”, “administrar”. Não bastasse este significado, o texto bíblico mostra claramente que Deus mantém o controle de toda a situação, seja porque, encontramos Deus ordenando ao homem (Gn.2:15-17), seja porque a narrativa bíblica demonstra que o homem só exerce suas faculdades mais excelentes, entre as quais, a de dar nome aos demais seres (que é o símbolo de sua superioridade), sob os auspícios e a devida supervisão do Senhor (cf. Gn.2:19-23).

- Como se ainda isto não fosse suficiente, as Escrituras são claras ao afirmar que, enquanto o homem tem o governo sobre a criação terrena, o reino, a soberania permanece sendo de Deus, o “dono”, o “proprietário”, ou seja, aquele que tem “poder absoluto sobre a coisa”, pois esta é a noção de propriedade. É o que se verifica no Sl.24:1; 47:8; 59:13; 93:1; 96:10; 97:1; 99:1; Is.52:7 e Ap.19:6, entre outras referências. Nestes trechos, aliás, os verbos são diversos, pois dão a idéia do domínio absoluto. É o verbo “reinar” que está em foco, que, em hebraico é “malak” e, em grego, “ebasileuein” (εβασιλευειν).

- O “triunfalismo”, portanto, perde já na sua base, pois todo o edifício que dá ao homem uma qualidade de “super-crente” parte do pressuposto de que ele é “detentor de direitos” diante de Deus e que, por isso, Deus é “obrigado” a praticar determinadas ações em favor dos “salvos”, por força dos “direitos” existentes no relacionamento entre Deus e a humanidade. Nada mais falso. Se é verdade que Deus nos resgatou do pecado e da perdição eterna, fê-lo porque é amoroso e tudo nos concede por “graça”, ou seja, “favor não merecido”, conceito bem diverso do de “direito”. Para nos utilizarmos da linguagem jurídica, tão ao gosto dos “triunfalistas”, a salvação do homem e as bênçãos decorrentes dela são fruto de uma “liberalidade” divina, não de uma “obrigação”.

OBS: “Liberalidade”, como nos diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa é ” disposição daquele que, em seus atos ou em suas intenções, dá o que não tem obrigação de dar e sem esperanças de receber nada em troca”. (grifo nosso)

- A idéia de “triunfo” por parte do ser humano é alheia ao texto bíblico. Na Versão Almeida Revista e Corrigida, a única vez em que aparece a palavra “triunfo” é no Sl.47:1, tradução esta, entretanto, que não é a melhor, vez que a palavra hebraica “rinnah” significa “voz alta”, “clamor”, “alegria”, “júbilo”, sendo estas as palavras utilizadas pelas demais versões, a começar da Almeida Revista e Atualizada.

- O verbo “triunfar” aparece em dois versículos da Versão Almeida Revista e Corrigida. A primeira vez, em Mt.12:20, quando o evangelista faz referência a uma profecia de Isaías, dizendo que o “servo do Senhor” (ou seja, o Messias) iria “triunfar em juízo”, palavra repetida pela Tradução Brasileira, mas que é tradução de “nikos” (νικος), que significa “vitória”, tanto que a Versão Almeida Revista e Atualizada prefere utilizar a palavra “vencedor”. De qualquer maneira, quando se fala em “triunfo”, está-se referindo a Jesus, Ele, sim, o triunfante contra o mal e o pecado.

- A segunda vez que se fala em “triunfar” na Versão Almeida Revista e Corrigida é no texto de II Co.2:14, um dos textos mais caros aos “triunfalistas”, onde temos o verbo grego “thriambeuonti” (θριαμβεύοντι), cujo significado é, efetivamente, “triunfar”. Para que verifiquemos se, neste texto, encontramos base para o pensamento triunfalista, nada melhor que transcrevê-lo para uma devida análise de sua literalidade:

E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar o cheiro do seu conhecimento.

- Neste texto, é inegável que a idéia do triunfo está associada à imagem da entrada do general vitorioso em Roma. Temos, assim, a verdadeira reprodução, na Bíblia Sagrada, da cena que dá origem ao “triunfo”. Mas, então o crente pode se comportar como um verdadeiro “general vitorioso”, que entra na sua cidade orgulhoso de sua condição de vitória, pronto a desfrutar das benesses dela decorrentes, ou seja, dos “direitos” resultantes da sua vitória militar, o que, em Roma, quase sempre, significa concessão de poder e de autoridade?

- A despeito de ter sido esta a interpretação dada pelos “triunfalistas”, o texto não nos autoriza a pensar desta maneira. O apóstolo Paulo, ao nos trazer a imagem do triunfo, está, sim, pondo o crente não na posição do general vitorioso, mas, ao contrário, o crente, diz Paulo, faz parte do “despojo” do vitorioso. Com efeito, quando o general ingressava em Roma, no seu “triunfo”, era seguido pelos bens e prisioneiros que eram capturados durante a guerra.

OBS: Flávio Josefo dá-nos uma idéia de como isto se dava, quando descreveu o “triunfo” de Tito, o general que destruiu Jerusalém e o templo no ano 70. Diz o historiador judeu: “…O dia de pompa tão soberba chegou e não houve uma só pessoa naquela infinita multidão de povo, que enchia toda Roma, que não quisesse presenciá-la.(…). É impossível descrever a magnificência desse festejo triunfal.(…). Viam-se todas as espécies de vestuários de púrpura (…). Havia estátuas de deuses, das diversas nações, de tamanho surpreendente.(…). Havia ainda várias espécies de animais raros e estimados, pela sua qualidade(…). Nada, porém, causava tanta admiração aos espectadores do que as diversas representações, como grandes armações de três ou quatro andares.(…). Eram imagens de cenas da guerra, as mais notáveis representadas ao natural.(…). Sobre cada uma dessas cidades, estava representado aquele que as havia defendido e de que maneira havia sido aprisionado. Vinham em seguida vários navios; entre a grande quantidade de despojos, os mais notáveis, eram os que tinham sido feitos no templo de Jerusalém; a mesa de ouro, que pesava vários talentos, o candelabro de ouro, feito com tanta arte(…). Simão, filho de Gioras, que depois de ter tomado parte no desfile triunfal, entre os outros escravos,…” (JOSEFO, Flávio. Tradução de Vicente Pedroso. Guerra dos judeus contra os romanos VII, 16,17. In: História dos hebreus, v.3, p.197-8).

- Ao dizer que Deus nos faz “triunfar em Cristo”, o apóstolo está nos dizendo que fazemos parte do “despojo” de Cristo, ou seja, somos o resultado da Sua vitória sobre o mal e o pecado, da Sua vitória sobre o adversário das nossas almas. O crente é um troféu que Cristo apresenta a Deus como prova da Sua vitória sobre o adversário das nossas almas. Daí porque a expressão da Versão Almeida Revista e Atualizada, qual seja, “nos conduz em triunfo” ou, na Nova Versão Internacional, “nos conduz vitoriosamente em Cristo”, ou seja, somos parte do espetáculo que Deus mostra a todo o universo para celebrar a vitória de Cristo sobre a morte e o inferno.

- Destarte, também este texto, em absoluto, põe o salvo no lugar do “general vitorioso”, nem estabelece qualquer base para que “esmaguemos a cabeça da serpente”, “amarremos o diabo”, ou, muito menos, “exijamos os nossos direitos” diante de Deus, mas, tão somente serve para nos mostrar que o vitorioso é Cristo e que, graças à Sua vitória, fomos por Ele conquistados para desfrutar, na Sua companhia, da vida eterna na cidade celestial.

II – A VIDA DE COMUNHÃO COM DEUS NÃO NOS IMPEDE DE TERMOS ADVERSIDADES NESTA VIDA

- A base do “triunfalismo” é dizer que, a partir do momento em que o homem aceita a Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, não é mais possível que o homem passe a ter problemas na vida sobre a face da Terra, pois a sua comunhão com Deus, a sua salvação lhe traz uma posição de “triunfo”, de vitória sobre o diabo. Portanto, é impossível que o salvo venha a sofrer enfermidades ou quaisquer outras necessidades, em especial, as relativas à vida econômico-financeira.

- Este raciocínio, como vimos na lição anterior, é antiqüíssimo, já se encontrava na teologia distorcida dos “amigos de Jó” e, conforme também visto, não representa um pensamento correto a respeito de Deus, como o denunciou o próprio Senhor em Sua conversa com Elifaz (Jó 42:7).

- A salvação é a maior bênção que um mortal poderia receber. Ela é a solução para o problema insolúvel do homem, qual seja, a sua separação de seu Criador por causa do pecado. Sem condições de resolver esta questão, o homem estava irremediavelmente perdido, mas Deus, desde o instante em que sentenciou o homem pelo seu pecado, prometeu reverter o quadro, o que se deu na pessoa de Cristo Jesus.

- Assim, a salvação é, sobretudo, uma bênção espiritual, tem a ver com o reatamento do relacionamento entre Deus e o homem e isto é o mais importante, pois a questão da eternidade é fundamental para o ser humano, que não foi criado para deixar de existir, mas cuja existência perdurará para sempre, na companhia de Deus, ou não.

- Não é por outro motivo que a questão relativa à vida eterna tem de ser tratada prioritariamente pelo ser humano. As Escrituras não cessam de mostrá-lo ao longo de suas páginas. Desde Abel, a Bíblia não nos cansa de mostrar que o segredo da vitória do homem está em buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:33). Segundo Jesus nos mostrou no sermão do monte, é este o fator distintivo entre os “gentios”, entendidos estes como os que não têm compromisso com Deus e os verdadeiros adoradores do Senhor.

- Aceitando a Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador, ocorre o maior milagre que poderia acontecer, qual seja, o de passarmos da morte para a vida (Jo.5:24), de sair das trevas e ir para a luz (Jo.3:20,21), tornando-se novas criaturas (II Co.5:17; Gl.6:5), cuja posição, agora, é a de estar nos lugares celestiais em Cristo, onde é abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais(Ef.1:3).

- Notamos, portanto, que, de pronto, a promessa de Deus que advém da salvação é a do desfrute de todas as bênçãos espirituais. Não há qualquer registro nas Escrituras de promessa de “todas as bênçãos materiais”, mas, sim, de “todas as bênçãos espirituais”. É esta a promessa dada por Deus e Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). As Escrituras, coerentemente, dão a devida importância e relevância para o aspecto espiritual, pois é isto que temos de buscar em primeiro lugar, isto é o que importa. Aliás, foi esta a ordem de Cristo: “Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo.6:27).

- Não só o crente deveria se preocupar em ter uma vida espiritual abundante, cada vez mais crescente, como também deveria, em sua vigilância contínua, zelar, prioritariamente, também pelo seu bem-estar espiritual. É, também, orientação do Senhor: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer, no inferno, a alma e o corpo” (Mt.10:28). Como podemos verificar, a preocupação do cristão deve ser com a sua vida eterna, com o seu relacionamento com Deus, deixando todas as demais coisas, conquanto necessárias, num segundo plano.

- Esta é a mesma conclusão que tiramos da vida do mais sábio homem que houve sobre a Terra, depois de Jesus. Salomão, no seu livro da velhice, o livro de Eclesiastes, com a autoridade que tem alguém que recebeu de Deus todas as bênçãos materiais possíveis, diz, ao término de sua pregação, que, diante de todas as bênçãos materiais recebidas, de tudo o que granjeou e desfrutou, chegava à conclusão seguinte: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os Seus mandamentos, porque este é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec.12:13,14). Ao verificar toda “a vida debaixo do sol”, que é o tema do livro de Eclesiastes, Salomão concluiu que tudo o que importa é o nosso relacionamento com Deus, o dever de todo o homem de obedecer-Lhe, pois é diante do Senhor que nos apresentaremos para prestar contas daquilo que fizemos nesta vida

- Dentro desta perspectiva é que devemos entender que, sobre a face da Terra, a vida nos reserva tanto alegrias quanto tristezas, tanto dias bons quanto dias maus. Quando vemos o que a Bíblia diz a respeito disto, constatamos, para desmentido dos triunfalistas, que o justo não está livre de sofrer contratempos na vida, de ter problemas e dificuldades. As Escrituras, quando falam da adversidade, nunca excluem o justo dele. Senão vejamos:

- No Sl.27:5, o salmista diz que, o dia da adversidade, será escondido no pavilhão de Deus, ou seja, além de o salmista admitir que sofrerá esta adversidade, ainda nos informa que esta adversidade tanto não é prova de que está sem Deus, que será o próprio Deus quem o acalantará durante este período difícil da sua vida. Nem se diga que se trata de um “derrotista”, de um “crente sem fé”, como costumam dizer os triunfalistas, pois quem escreveu este salmo foi Davi, um “homem segundo o coração de Deus”, um exemplo de guerreiro e de vencedor de batalhas e, como se isto não bastasse, num salmo em que se louva a falta de medo, em que se louva a coragem daquele que confia em Deus. Entretanto, a coragem, a fé em Deus não retiram o fato de que o justo passa, sim, por problemas e dificuldades e disto Davi dá testemunho na sua vida.

- No Sl.35:5, o salmista não só fala que o justo passa por adversidade, como ainda que, por causa da adversidade, os seus inimigos se vangloriavam e festejavam. O salmista, apesar desta situação aflitiva e de confiar que ela será revertida, não deixa de mostrar que se encontra em comunhão com o Senhor, que se humilha e jejua na presença de Deus, não tendo, pois, perdido a sua salvação. Isto, porém, não impediu que houvesse a adversidade.

- Em Ec.7:14, é dito que Deus fez tanto o dia da prosperidade, quanto o dia da adversidade e, com uma finalidade, a saber: “para que o homem nada ache que tenha de vir depois dele”. Assim, um dos motivos pelos quais Deus permite a todo ser humano passar por adversidades é para que entenda a efemeridade da existência sobre a Terra e o seu correto lugar na ordem do universo. O sábio, pois, faz questão de nos mostrar que esta sucessão de dias se dá a todo o ser humano, indistintamente, seja ele alguém que serve a Deus, seja ele alguém que não O serve.

- Mas, dirá alguém, que, quando se fala em adversidade, temos o Sl.10:6, onde é dito que “Não serei abalado, porque nunca me verei na adversidade”. Tal pensamento, bem apropriado para os “triunfalistas” que, como veremos, são mestres na arte de retirar textos fora do contexto nas Escrituras para alicerçar seus conceitos, não resiste a uma análise superficial. Quem diz que nunca estará em adversidade, à moda dos triunfalistas? São os ímpios, como vemos a partir do Sl.10:2, onde é dito que “os ímpios, na sua arrogância, perseguem furiosamente o pobre”; no Sl.10:3, diz-se que “o ímpio gloria-se do desejo da sua alma”; no Sl. 10:4, “por causa do seu orgulho, (…) não investiga,…”; no Sl. 10:5, “os seus caminhos são sempre atormentadores”, para então, no versículo 6, dizer que “não será abalada, nunca se verá na adversidade”. Temos, pois, que o texto, tão do gosto dos triunfalistas, mostra-nos, bem ao contrário do que eles desejam, que a idéia de que não se passará jamais por adversidade é uma idéia típica de quem não serve a Deus, é a idéia típica do arrogante, do auto-suficiente, daquele que “dispensa Deus” das suas vidas, do orgulhoso, do pecador.

OBS: A Nova Versão Internacional apresenta um texto que bem traduz as pregações dos triunfalistas dos nossos dias: “…’Nada me abalará! Desgraça alguma me atingirá, nem a mim nem aos meus descendentes’…” (Sl.10:6).

- O que verificamos, neste Salmo 10, é uma das muitas lições da Bíblia a respeito da evidência de que o justo, apesar de ser justo, nem por isso está livre de passar por adversidades. A “vida debaixo do sol” possui esta característica. Jesus disse aos discípulos que, no mundo, teriam aflições (Jo.16:33), ou seja, “thlipsis” (θλιπσις), cujo significado é “angústia”, “problema”, “tribulação”, “perseguição”, expressão que designava o ato de moer o grão para produção de farinha. Tal palavra foi dada aos discípulos, isto é, aos que serviam a Jesus. Esta foi a única garantia e certeza dada por Cristo aos Seus, sendo até uma das “bem-aventuranças” mencionadas no intróito do sermão do monte, qual seja, a dos injuriados e perseguidos por causa do nome de Jesus (Mt.5:11,12).

- Como, então, dizer que o crente, se em comunhão com Deus, jamais sofrerá dificuldades? Como afirmar, com base nas Escrituras, que a vida do salvo é imune a qualquer tipo de problema, seja ele enfermidade, conflito familiar, injustiça, carência econômico-financeira, carência afetiva ou outras coisas mais?

- No mesmo sermão do monte, Jesus fez questão de ensinar Seus discípulos de que as dificuldades ocorridas durante a “vida debaixo do sol” ou “vida debaixo do céu” (Ec.1:13) são de três origens, que tanto ocorrem para os sábios, que são os servos do Senhor, como para os insensatos, que são aqueles que não servem a Deus, a saber (Mt.7:25,27):

a) dificuldades surgidas por ação direta de Deus, as chamadas provações divinas, que foram representadas pelo Senhor pela chuva, que vem do céu.

b) dificuldades surgidas por ação direta das hostes espirituais da maldade, as chamadas tentações ou ações malignas, que foram representadas pelo Senhor pelos rios, que vêm de debaixo do solo, das regiões inferiores.

c) dificuldades surgidas da aplicação da “lei da ceifa” (Gl.6:7), ou seja, conseqüências das atitudes dos próprios homens na sua convivência com o semelhante, que foram representadas pelo Senhor pelos ventos, que vêm dos lados.

- Um dos graves erros dos “triunfalistas” está em repetir o gesto do ímpio do Salmo 10, que “não investiga”, ou seja, dentro da teoria “triunfalista”, todo e qualquer mal que sobrevém ao crente seria uma “obra de Satanás”, uma “obra demoníaca”, motivo por que se deve “determinar”, ou seja, como vimos na lição anterior, na definição dada por R.R. Soares, “… não é ordenar a Deus e sim ao diabo que tire de nós suas garras e desapareça de nossas vidas, de nosso dinheiro e de nossas famílias.” (Curso Fé. Aula 1. Determinação. http://www.ongrace.com/cursofe/licoes.php?id=1″>http://www.ongrace.com/cursofe/licoes.php?id=1 Acesso em 20 abr. 2006).

- Contudo, Jesus nos ensina que nem sempre uma adversidade é resultado da obra do inimigo. Muito pelo contrário, muitas vezes estamos a padecer por causa de atitudes que nós mesmos tomamos ao longo de nossas vidas, esquecendo-se de que o controle de todas as coisas está nas mãos do Senhor, que não Se deixa escarnecer e que faz valer a Sua soberania, inclusive para que haja o cumprimento da Sua Palavra. Em outras oportunidades, o que está acontecendo nada mais é que uma provação divina, uma permissão divina de sofrimento ao justo para que, por meio desta tribulação, este Seu servo adquira paciência, experiência e esperança, tudo tendo em vista o seu crescimento espiritual (Rm.5:3,4).

- Não podemos agir como os ímpios, mas, diante de uma dificuldade ou adversidade, proceder a uma investigação, a uma apuração dos fatos, como nos dá a entender o verbo hebraico “darash”. É preciso que, ante um problema, paremos e nos examinemos, verifiquemos qual é a causa, a razão de estarmos a passar por isso. Se não for encontrado um caminho mau em nós, após esta sondagem profunda, não só empreendida por nós, mas que encontre, também, a ajuda do Espírito de Deus (cf. Sl.139:23,24), então saberemos que se trata de uma prova divina e, como tal, devemos suportá-la, sabendo que tudo o que se passar será para o nosso bem (Rm.8:28).

- Os “triunfalistas”, porém, trazem um outro conselho, verdadeiro conselho de ímpio (Sl.1:1), que deve ser evitado, que é o de “determinar”, “recusar”, “não aceitar” a dificuldade. Para tanto, como entendem que tudo o que sobrevier ao crente salvo será obra maligna, exigem que expulsemos o adversário e, “usando da fé”, repudiemos o maligno, usando a “autoridade” que tem o verdadeiro e genuíno crente. Tal situação somente valerá para as hipóteses em que se estiver diante de uma tentação, de uma obra maligna, quando, então, no nosso auto-exame, recorrendo ao Senhor, teremos o livramento COMO e QUANDO o Senhor assim o desejar. Se, no entanto, tratar-se de aplicação da “lei da ceifa”, como podemos resistir ao Senhor e à soberania da Sua Palavra? (II Cr.20:6; At.11:17) De igual modo, como lutar contra a provação que nos é posta pelo próprio Deus?

- “Enfrentar Deus”, “pôr Deus contra a parede”, como defendem os triunfalistas é um comportamento reprovável e absurdo. É a conduta que os ímpios, como nos mostra o Salmo 10, tomam, já que, “em sua presunção, o ímpio não O busca; não há lugar para Deus em nenhum dos seus planos.” (Sl.10:4 NVI). No entanto, como Deus é prioridade em nossos corações, como é Ele a nossa própria razão de viver, jamais poderemos agir como se não O levássemos em consideração. Todavia, é assim que os triunfalistas nos mandam agir, o que, não é preciso sequer dizermos, será a causa de nossa ruína, pois um tal proceder é pura rebelião, e, como sabemos, “…a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria…” (I Sm.15:23 “in medio”). Que Deus nos guarde, pois, porque, como sabemos, os feiticeiros e os idólatras ficarão do lado de fora da cidade santa (cf. Ap.21:8; 22:15).

- Não fossem já estes conceitos que extraímos da Palavra do Senhor suficientes para demonstrar que a vida espiritual não significa, em absoluto, imunidade a dificuldades e adversidades ao longo da vida, o fato é que a Bíblia, também, nos dá muitos exemplos de homens e mulheres de Deus que, apesar de sua vida de comunhão com o Senhor, sofreram terrivelmente e não foram poupados de adversidades e de problemas na sua “vida debaixo do sol”.

- É até interessante observar que, na galeria dos chamados “heróis da fé”, ou seja, o capítulo 11 da epístola aos Hebreus, que é como que um “desfile triunfal” dos servos de Deus, uma demonstração de que vale a pena ter fé em Deus, o escritor, a despeito de considerá-los homens e mulheres dignos de nota, verdadeiras testemunhas do Senhor que animam os crentes de todas as gerações a ter uma vida de comunhão com Deus (cf. Hb.12:1-3), não deixa de mostrar que este heroísmo, este triunfo não representou qualquer isenção, por parte de Deus, de dificuldades ou de tribulações, muitas das quais sem sequer a reversão do quadro desfavorável quando o servo do Senhor ainda em vida se encontrava.

- Assim, a começar por Abel (um dos quais o quadro desfavorável não foi revertido, vez que, pela sua justiça, foi morto sem que tivesse sequer chance de “triunfar”), o escritor fala-nos de diversas personagens, os quais, como aduz ao término da exposição, “…experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb.11:36b-39). Onde, pois, a imunidade diante da adversidade de quem serve a Deus? Não eram todos estes “heróis da fé”? Não são todos estes “testemunhas” que servem de estímulo para nós? Por que, então, não “determinaram” e evitaram o mal sobre suas vidas? Temos, assim, a prova cabal de que a vida de comunhão com Deus jamais significou a impossibilidade de sofrer adversidades e problemas e, por vezes, até mesmo a morte sem que tivesse havido a suplantação da situação adversa.

- Diante de tão explícito texto, não demoram os triunfalistas em alegar que o escritor aos hebreus está a narrar a situação “antes da morte de Cristo”, quando o “mundo ainda estava legalmente nas mãos de Satanás”. Nada mais falso. Estes homens e mulheres mencionados pelo escritor aos hebreus são os “heróis da fé”, ou seja, embora tenham vivido antes da realização da redenção pelo Senhor Jesus, nela creram e, por causa desta fé, são também santos e se encontram num estado de salvação igual ao nosso. Quem o diz é o próprio escritor, na continuação do texto do capítulo 11, “in verbis”: “Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados”. Como se percebe, tanto estes “heróis” quanto nós devemos ser “aperfeiçoados”, ou seja, gozamos da mesma condição espiritual.

- Mas os triunfalistas prosseguem, dizendo que o texto nos fala de “alguma coisa melhor a nosso respeito” e esta “coisa melhor” seria a imunidade às “obras do mal”. Na nova aliança, dizem eles, não há que termos o mesmo sofrimento dos patriarcas e dos profetas, pois existe “alguma coisa melhor”. Não resta dúvida de que o escritor aos hebreus nos diz que existe “alguma coisa melhor”. Aliás, esta “alguma coisa melhor” é, precisamente, a mensagem de todo o livro, pois podemos resumir a mensagem crística de Hebreus nas palavras “Jesus é melhor”.

- Esta “alguma coisa melhor” não é, para tristeza dos triunfalistas, a imunidade a provações ou dificuldades, mas o próprio Jesus. Como, na continuação do texto, mostra-nos o escritor da carta, os crentes, ao contrário dos “heróis da fé”, têm, além do testemunho dos próprios heróis, o exemplo de Jesus(Hb.12:2,3), que foi revelado à Igreja e que ainda não havia sido plenamente revelado aos santos do Antigo Testamento. Esta “alguma coisa melhor” é a possibilidade que temos de olhar para Jesus, que a nós foi revelado, algo que foi muito desejado, mas não alcançado por aqueles justos (Mt.13:17; Lc.10:24) e, diante deste olhar, nos mantermos firmes, apesar de todas as provações e dificuldades que venhamos a enfrentar. Provações e dificuldades? Sim, pois, também para tristeza dos triunfalistas, o escritor aos hebreus, ao falar do exemplo de Cristo, anima os crentes hebreus a resistir na fé apesar de todas as adversidades (Hb.12:4).

- Por fim, para provarmos que as dificuldades e as adversidades não são coisas que caracterizaram o Antigo Testamento, como defendem os triunfalistas, basta mencionarmos as aflições e sofrimentos dos apóstolos e demais discípulos na igreja primitiva, como o martírio de Estêvão e de Tiago, sem falar nas diversas adversidades do ministério de Paulo (II Co.11:23-27). A conclusão só pode ser, pois, uma: a Bíblia nunca ensinou que o crente não sofre por ter fé em Deus.

III – PRÁTICAS TRIUNFALISTAS A SEREM EVITADAS

- Como dissemos desde a lição anterior, a teologia da prosperidade e seu principal subproduto, que é o triunfalismo, tem infestado como erva daninha as igrejas evangélicas nestes últimos dias desta dispensação, gerando erros doutrinários, quando não apostasia, na medida em que desvia a atenção dos servos do Senhor do que é prioritário e relevante.

- O triunfalismo tem se instalado na vida de muitas igrejas locais e de muitas pessoas em função de muitos fatores, mas, notadamente, porque encontra um ambiente sócio-econômico-ideológico-espiritual favorável para a sua disseminação.

- As sociedades têm se interligado como nunca, com o aumento da tecnologia e da ciência, fazendo com que seja cada vez mais realidade o que se denominou de “aldeia global”, ou seja, todos têm acesso a muitas informações, como se todos vivessem numa pequena aldeia, onde todos conhecem a todos. Entretanto, estas sociedades são relacionadas por intermédio dos meios de comunicação, pela mídia, que, como se verifica em todo o mundo, está nas mãos de poucas pessoas que, se dominadas pelo espírito do anticristo, como são em sua grande e esmagadora maioria, disseminam os valores mundanos, fazendo imperar tudo aquilo que desagrada a Deus. O resultado é que, a cada dia que passa, o pecado se multiplica e, com ele, todas as mazelas, que tornam o ambiente social cada vez mais aviltante ao ser humano, cada vez mais hostil. A dura e triste realidade é, então, ardilosamente escamoteada, estereotipada, ou seja, passa-se a difundir uma imagem irreal, ilusória da realidade, de que é prova, nos nossos dias, o crescimento da indústria do entretenimento e das iniciativas para que as pessoas vivam um “mundo virtual”. Esta “fantasia” que é vendida aos homens é também estendida à área espiritual, de maneira que as pessoas também passam a ser presas de “fantasias”, “mágicas” e “ilusões” que se apresentam travestidas de Bíblia Sagrada e de Palavra de Deus.

- Não é difícil entender, pois, porque uma das principais marcas do triunfalismo seja a promoção de “campanhas”, expressão, aliás, que vem diretamente do “marketing”, área do conhecimento humano que se desenvolveu grandemente no século XX e que é, precisamente, a utilização da técnica da “fantasia” e da “ilusão” para se obter resultados concretos na realidade da disputa selvagem pela preferência das pessoas, reduzidas hoje a simples consumidoras de produtos e serviços que lhes são oferecidos.

OBS: Campanha, em “marketing”, é o “conjunto de mensagens e ações comunicacionais (anúncios, promoções, eventos etc.) com o objetivo de exaltar as qualidades de determinado produto comercial, para torná-lo vendável, ou para tornar mais conhecido e aceito o nome de alguém, a marca de uma empresa, um serviço, uma idéia, uma causa etc.”

- Não vemos como possamos denominar de “campanhas” a adoração a Deus e o culto que Lhe é devido. Jesus mandou-nos anunciar o Evangelho (Mc.16:15), ou seja, dizer ao mundo que Ele salva, cura, batiza com o Espírito Santo e nos leva para o céu, esta mensagem simples mas eficiente que, há cem anos, tem promovido o maior e mais longo avivamento que a Igreja experimentou em toda a sua história, a verdadeira “chuva serôdia” que antecederá a colheita dos salvos desta Terra, o que se dará no dia do arrebatamento, que está tão próximo.

- O anúncio do Evangelho é, em primeiro lugar, a pregação da Palavra (Mc.16:20), como vemos na igreja primitiva, em especial no livro de Atos dos Apóstolos. Ao se pregar a Palavra, o Senhor coopera conosco e confirma esta mesma Palavra com os sinais que se seguem. Todavia, os triunfalistas fogem da Palavra, porque ela não os sustenta, e têm trocado a Palavra por “campanhas”, ou seja, por estratégias e técnicas de comunicação que buscam emocionar o povo, persuadi-los a adotar comportamentos quase sempre vinculados ao consumo de produtos e de serviços. Como bem afirmou o sociólogo da religião, Flávio Pierucci, “…as religiões mais bem-sucedidas são aquelas que (…) passaram a oferecer serviços lábeis [ i.e., instáveis, que passam rapidamente, observação nossa], que na linguagem das ciências sociais da religião desde os clássicos (…) são definidos como vias de salvação mágicas ou mágico-místicas. Caracteriza tais serviços o fato de serem tópicos[i.e., externos, superficiais), não permanentes e de consumo imediato, o mais das vezes oferecidos em troca de pagamento.…”(Religião. Folha de São Paulo, caderno Mais!, 31 dez. 2000, p.20-1)

- A prática da “campanha” é, portanto, uma clara demonstração do que é e o que representa o triunfalismo. Ao se adotar uma estratégia voltada para o consumo de bens e de produtos, o triunfalismo revela sua postura materialista, seu intento de se aproveitar das dificuldades sociais da atualidade para arrecadação de fundos e de dinheiro. Em nome de uma “fantasiosa” imunidade contra o mal, os triunfalistas mostram-se, na verdade, como escravos do dinheiro, como os falsos mestres dos últimos dias que fariam dos crentes negócio por causa de sua avareza (II Pe.2:3). São verdadeiros “mercenários da fé”, que concebem a fé como “algo”, a saber, como “fonte de enriquecimento material”.

- Não encontramos na Bíblia qualquer “campanha” que tenha sido feita por Cristo ou por Seus discípulos. Tal prática era completamente desconhecida da Igreja, não porque estivéssemos na Antigüidade, mas porque não se trata de um procedimento que tenha guarida nas Escrituras. A oração e a apresentação de pedidos ao Senhor deve ser uma constante na vida da Igreja (I Ts.5:17), sendo, também, biblicamente prevista a reunião da igreja para pedidos especiais (At.12:5), mas nada disto se confunde com as “campanhas” que se têm difundido e propagado, cujo único intuito é “pôr Deus contra a parede”, “amarrar o diabo”, criar um clima emocional e sem qualquer espiritualidade, cuja principal intenção nada mais é senão a arrecadação de fundos e de numerário para os cofres de algumas organizações religiosas.

- Encontramos, então, o outro aspecto explorado pelos triunfalistas nestes dias tão difíceis: a crescente dificuldade econômico-financeira da população, diante da concentração de renda cada vez mais intensa provocada pela chamada “globalização”, que é a internacionalização de todo o processo econômico, prenúncio do surgimento de uma nova ordem mundial, em que o poder político estará acima dos países, que outro não será senão o governo do Anticristo.

- Como as pessoas passam a ter crescentes dificuldades econômicas, mas, ainda assim, não deixam de dar prioridade às coisas terrenas, às coisas desta vida, pois é esta a característica daqueles que não têm compromisso com Deus (cf. Mt.6:32a), torna-se uma mensagem agradável aos ouvidos do povo aquela que apregoa que o Evangelho traz prosperidade material e imunidade contra a pobreza e a doença. Muitos, então, vão atrás de Jesus não porque queiram ter vida eterna, mas apenas para obter estas vantagens, que, a cada dia que passa, o sistema econômico lhes vai negando. Querem não servir a Jesus, mas, sim, se servir de Jesus e é precisamente esta a mensagem do triunfalismo, a mensagem antropocêntrica da “teologia da prosperidade”.

- Estas pessoas, como diz o apóstolo Paulo, são as mais miseráveis criaturas humanas da face da Terra(I Co.15:19), porque, sabendo quem é Jesus e o que veio fazer neste mundo, querem apenas dEle se servir para terem bens e tesouros que nada lhes representará na eternidade. São pessoas que, infelizmente, não seguem a doutrina de Cristo que, tão explicitamente exposta no sermão do monte, nos manda ajuntar tesouros no céu e não na terra, pois onde estiver o nosso tesouro, ali estará o nosso coração (Mt.6:19-21).

- O triunfalismo é uma tentativa de justificação deste apego às coisas materiais por intermédio de uma roupagem evangélica, de uma aparência bíblica, mas um exame acurado das Escrituras desmente cabalmente o que é dito por estes homens enganadores. As multidões, impregnadas do amor ao dinheiro, raiz de toda a espécie de males (I Tm.6:10), são tão avarentas e desgraçadas quanto os “mercenários da fé”. Tanto um quanto o outro são idólatras, servem às riquezas e quem serve às riquezas, não serve a Deus (Mt.6:24).

- Neste passo, são, também, práticas triunfalistas condenáveis os “sacrifícios”, os “carnês” e toda e qualquer espécie de contribuição financeira que é dada com o intuito de estabelecer uma barganha com Deus. Muitos têm tratado os dízimos, as ofertas e demais contribuições como “investimentos”, como um “toma-lá-dá-cá”, como se Deus Se prendesse a gestos feitos pelos homens. Deus tem compromisso com a Sua Palavra e é evidente que há uma regra bíblica para as finanças da igreja local, mas nada disso é previsto nas Escrituras como um laço que obrigue Deus a enriquecer quem quer que seja. Tais práticas em nada diferem das “indulgências” do Romanismo, que são concebidas como perdão de pecados que a Igreja Romana pode dar em troca de obras meritórias feitas pelos fiéis, entre as quais a contribuição financeira para a organização religiosa. É triste ver que, quinhentos anos depois de Lutero, serem alguns “evangélicos” os maiores distribuidores de “indulgências” na atualidade. É a apostasia que caracteriza, sempre, os dias finais de uma dispensação na história da humanidade…

- A Bíblia diz que Deus ama a quem dá com alegria (II Co.9:7 “in fine”), não a quem dá com ganância. Se participarmos destas atitudes, destas práticas, estaremos não só ajudando a enriquecer pessoas inescrupulosas, como também selando a nossa própria condenação, pois, com este gesto, denunciaremos que, tanto quanto estes exploradores da fé, também amamos o dinheiro e, por causa deste amor, nos desviamos da fé, tornando-se idólatras, já que avarentos e gananciosos (Cl.3:5). Se tivermos uma verdadeira vida santa, contentar-nos-emos com o que temos (Hb.13:5) e, portanto, não seremos seduzidos pelas promessas de “enriquecimento súbito” trazidas pelos triunfalistas, que são descritos pelo apóstolo Pedro como “tendo o coração exercitado na avareza, filhos da maldição” (II Pe.2:14 “in fine”).

- Também aqui se insere outra prática triunfalista, qual seja, a “restituição”, idéia que ficou popularizada no cântico cujo refrão é ” Restitui…eu quero de volta o que é meu”. Esta prática é, também, uma fonte de dinheiro para muitos inescrupulosos que, através de “campanhas de restituição”, têm levado multidões a “exigir de Deus o que foi tomado, o que é meu” e, além de lhes causar a abominação do Senhor, ainda por cima acabam tomando o que havia ficado, por meio de ofertas e “sacrifícios”, habilmente solicitados nestas mesmas campanhas.

- Como bem afirmou o pastor e professor José Mathias Acácio, “…Vivemos pela graça. Graça foi, é e sempre será favor imerecido. TUDO o que recebemos das mãos de Deus é graça. Não temos direito a nada(…). O que é a graça, senão recebermos de Deus tudo aquilo que não merecemos, que não nos pertence e que nos é dado gratuitamente por Aquele que é Senhor de tudo e de todos? Quando eu acho que sou dono das minhas coisas e que tenho ‘direito’ sobre elas, automaticamente excluo o verdadeiro dono. Ninguém pode servir a dois senhores. Ou Deus é o dono de minha vida e, por conseqüência, dono de tudo o que me é dado, ou EU sou o dono de tudo e aí, sim, sirvo a mim mesmo, tendo direitos exclusivos sobre aquilo que é ‘meu’…” (Modismos evangélicos. Resumo escrito da aula inaugural do 2. trimestre de 2006 da Escola Bíblica Dominical, proferida na Assembléia de Deus do Belenzinho, São Paulo/SP em 1 abr. 2006, p.3-4)

- Não podemos compactuar com estas práticas de “restituição” e de tudo o que envolva esta idéia, pois ela é pura e simplesmente manifestação de rebelião contra Deus, porquanto ao acharmos que algo é “nosso”, que deve ser devolvido, estamos afirmando uma ilusória independência do homem em relação a Deus, exatamente o que fez o primeiro casal pecar e perder a comunhão com o Senhor. Ao invés de “querer de voltar o que é nosso”, devemos ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que foi expresso pelo apóstolo Paulo numa das suas frases lapidares: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim.” (Gl.2:20).

IV – ORAÇÃO E LEITURA DA BÍBLIA – AS ARMAS EFICAZES CONTRA O TRIUNFALISMO

- No tópico anterior, vimos que o triunfalismo tem alcançado grande êxito por causa do ambiente sócio-econômico-ideológico-espiritual dominante nos nossos dias, mas, como deve ter se percebido, apenas enfocamos os fatores sociais e econômicos. Falta-nos, portanto, analisar o aspecto ideológico e o aspecto espiritual.

- Ao falarmos em aspecto “ideológico”, estamos a tratar de “ideologia”, que é, no significado que estamos a utilizar, o “sistema de idéias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes, sustentadas por um grupo social de qualquer natureza ou dimensão, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos.” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

- Quando estudamos os dias atuais, no quarto trimestre de 2005, observamos que o nosso tempo é caracterizado por uma ideologia que não leva em conta a figura de Deus e que é centrada no homem, ele próprio considerado um “deus”. A religiosidade que ressurgiu com toda a sua força a partir da Segunda Guerra Mundial tem se caracterizado por uma busca do sobrenatural a partir da própria figura humana, o que explica o sucesso que as religiões orientais têm tido no Ocidente.

- Há, assim, uma “divinização” do ser humano, uma exaltação exagerada do homem, um “humanismo” que, com busca de uma sobrenaturalidade, procura se diferenciar do elogio que se fez ao homem logo depois da Idade Média, quando se entendia que a razão e, por extensão, a ciência resolveria todos os problemas da humanidade. Como o homem, ao invés de resolver seus problemas, criou outros mais, passou a culpar este fracasso pelo seu “materialismo”, passando, então, não a voltar-se para Deus, o que seria o certo, mas tão somente a buscar “dentro de si”, o “sobrenatural”, o “místico”, a “espiritualidade”, que seria o que lhe estaria a faltar para atingir uma “nova era”.

- Pois bem, é dentro deste contexto que se insere o triunfalismo. Ainda que com roupagem bíblica e evangélica, o triunfalismo deixa Deus de lado e passa a valorizar o crente. Já perceberam que o culto a Deus passou a ser uma exaltação do crente em vez de ser voltado para o Senhor? Já perceberam que os “louvores” que têm alcançado número recorde de vendas pouco falam de Deus e muito do crente, pouco falam da majestade divina e mais dos sentimentos “puros” e “profundos” que o crente tem ao se apresentar diante do Senhor?

- Uma prática triunfalista é, portanto, tornar o homem o centro do culto, o centro da adoração. Não Se adora a Deus, mas se busca, na “adoração”, sentir-se bem, aliviado, livre da tensão do dia-a-dia, o que, aliás, explica porque, normalmente, os triunfalistas recorrem às mesmas técnicas e estratégias de relaxamento mental que são usadas pelas “terapias alternativas” esotéricas e holísticas da Nova Era …

OBS: Já há pessoas que ensinam que não se deve orar sem que se tenha uma música suave ao fundo…

- Como resultado direto desta ideologia humanista, antropocêntrica, o triunfalismo menospreza, quando não critica abertamente, os dois pilares da vida devocional do cristão: a oração e a leitura da Bíblia Sagrada. Fazem, assim, o que as lideranças romanistas fizeram durante séculos na Idade Média.

- Quando o crente não está voltado para si, mas, sim, para o Senhor, ou seja, quando Deus é o centro da vida da pessoa, ela não consegue viver sem que esteja em constante comunicação com o seu Senhor e isto se dá seja pela oração, seja pela meditação constante das Escrituras. Crente que se volta para Deus precisa ouvi-lO falar e falar com Ele constantemente, ininterruptamente e é por isso que a Bíblia diz que devemos orar sem cessar(Ef.6:18 “in initio”, I Ts.5:17) e meditar na Sua Palavra de dia e de noite (Js.1:8; Sl.1:2).

- O crente que ora incessantemente, que tem uma vida de oração, não precisa participar de “campanhas”, nem é levado por elas, porque conhece a voz de seu Senhor e por Ele é conhecido (Jo.10:14), não se baseando, assim, em climas emocionais superficialmente criados, porque desfruta de uma intimidade com Deus (Mt.6:6). É um crente que não substitui a sua oração sincera e que vem do profundo de seu espírito, uma verdadeira oração no espírito (Ef.6:18), por “fórmulas de fé”, “correntes de oração”, “determinações”, “novenas”, “meditações”, “concentrações”, que nada mais são que nomes novos para as “vãs repetições” condenadas por Jesus e que já eram praticadas pelos gentios há séculos (Mt.6:7,8).

- Infelizmente, quando o crente não ora, nos momentos de dificuldade e de necessidade, tem a tendência de recorrer a estas “fórmulas mágicas”, a estes verdadeiros “mantras” e “rezas” dos triunfalistas, achando que, desta maneira, conseguirá o favor divino. É muito cômodo para o crente relapso, que não tem intimidade com Deus, usar destes subterfúgios para ter um “atalho” ao trono da graça, mas, como todos sabemos, se não for pelo caminho traçado por Deus, jamais conseguirá algo.

- Precisamos, nos dias em que vivemos, levar o povo de nossas igrejas locais à prática da oração. Falta oração nas igrejas, nós, mesmos, temos nos dedicado pouco à oração. Por isso, não temos visto tanto a presença de Deus em nossas reuniões e em nossas vidas, porque não pedimos e é necessário que peçamos para que o Senhor nos atenda (Mt.7:7; Lc.11:9; Jo.16:24).

- A oração não é uma fórmula mágica, um “abracadabra” que se dirige a Deus, como ensinam os triunfalistas, nem tampouco uma exigência de supostos “direitos” que tenhamos diante de Deus, mas uma expressão da nossa comunhão com Deus, uma troca de vivências e de experiências entre Deus e o homem, um contínuo aprender de Deus, uma continuada submissão da nossa vontade, a ser clara e explicitamente revelada e confessada ao Senhor, à vontade de Deus, que também no-la revelará em toda a Sua plenitude. O crente que ora é aquele que pode dizer como Jesus, “…tudo quanto ouvi de Meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo.15:15 “in fine”).

- Se levarmos o povo a orar, se nós mesmos orarmos incessantemente, ouviremos coisas grandiosas de Deus, aprenderemos muito dEle, saberemos como e o que pedir e não necessitaremos correr daqui para ali, nem dar dinheiro aqui e ali, para sentirmos a presença de Deus e para obtermos as bênçãos de Deus. As maravilhas, os sinais e as coisas extraordinárias que os triunfalistas nos lembram em suas pregações podem, sim, realizar-se nos nossos dias, mas dependem da mesma vida de oração que era mantida pelos homens de Deus que forma os instrumentos do Senhor. É necessário pagar o preço para sermos vasos para honra e santificação, pois nós somos filhos de Deus e não magos ou feiticeiros.

- Mas, além da vida de oração, temos de ter uma meditação constante das Escrituras, devemos manejar bem a palavra da verdade (II Tm.2:15). O desconhecimento da Palavra de Deus é a causa da destruição do povo (Os.4:6) e não é coincidência que os triunfalistas sejam, simultaneamente, os principais inimigos do estudo da Bíblia Sagrada na atualidade.

- Quando conhecemos as Escrituras, logo percebemos as sutilezas do adversário e, logicamente, os falsos mestres, que são agentes do inimigo, não querem que os desmascaremos. Quem estuda as Escrituras, quem se dedica a uma leitura metódica e devocional do texto sagrado não se deixa seduzir facilmente pelo triunfalismo.

- Os triunfalistas sempre dão a suas pregações egocêntricas e megalomaníacas uma roupagem bíblica. Assim, não faltam imagens e narrativas bíblicas para ilustrarem as suas “campanhas” e os seus “movimentos”. Um dia, é a “campanha da derrubada das muralhas de Jericó”; outro dia, o “jejum de Moisés”; depois, vem “os trezentos de Gedeão”, para não nos esquecermos dos “trinta valentes de Davi” e por aí afora. São, porém, verdadeiras “peles de ovelhas” que se colocam atrás destes movimentos que são “lobos cruéis”, prontos a devorar não só o bolso dos incautos (que é o que pretendem estes mercenários), mas, e isto é mais grave e o mais relevante, a própria fé e a alma dos que se decepcionarão com o não cumprimento destas promessas (que é o que pretende aquele que está por detrás destes movimentos).

- Como bem salienta o nosso comentarista, uma noção ainda que superficial das regras da chamada “hermenêutica”, ou seja, da ciência da interpretação da Bíblia, é suficiente para desbaratar e desmontar todas estas armadilhas criadas pelos triunfalistas e que têm enganado a muitos. O problema é que a grande maioria dos crentes não lê a Bíblia e os poucos que a lêem não têm a mesma prudência demonstrada no diálogo entre Filipe e o eunuco (At.8:26-40). Ali, verifica-se que, de um lado, o evangelista Filipe tinha a preocupação não só de anunciar a Palavra de Deus, mas de fazê-la entendida por quem a ouvisse, enquanto que, de outro lado, o eunuco também era um leitor atento, alguém que, além de querer ler, queria entender o que estava lendo e estava disposto a ouvir a explicação a respeito do que está escrito.

- Meditar na Palavra de Deus, envolve, portanto, dois pontos: a leitura e o entendimento. Ora, a leitura só caminha até o entendimento se houver a explicação. Foi, por isso, que os apóstolos se dedicaram, com prioridade, ao ministério da palavra (At.6:2,4) e que Jesus constituiu mestres para o aperfeiçoamento dos santos (Ef.4:11,12). Somente se cada crente for ensinado convenientemente na Palavra, de modo a ter uma vida devocional diária de meditação nas Escrituras, como também motivado a participar das reuniões de ensino da igreja local, que devem ser prestigiadas e valorizadas pelo ministério, é que poderemos escapar da armadilha do triunfalismo, como, de resto, de toda e qualquer falsa doutrina.

- Não é nosso propósito aqui fazermos um curso de hermenêutica, mas, a grosso modo, podemos alinhavar algumas regras que devem orientar a leitura da Bíblia Sagrada e cuja aplicação, de pronto, elimina toda a “força” da aparência bíblica da mensagem triunfalista. Para tanto, valemo-nos aqui do artigo “Hermenêutica”, de Natanael Nogueira de Sousa e Kleber Paulo de Santana, que se encontra em http://sites.uol.com.br/revistadominical/Estudo/hermeneutica.htm”>http://sites.uol.com.br/revistadominical/Estudo/hermeneutica.htm (acesso em 27 abr. 2006).

- A primeira regra é a melhor intérprete para a Bíblia é a própria Bíblia, ou seja, a Bíblia explica a si mesma. Sempre que encontrarmos um determinado pensamento ou conceito num determinado texto bíblico, devemos confrontá-lo com a própria Bíblia, a fim de que não sejamos induzidos a erro. É por isso que um texto isolado, solitário JAMAIS poderá dar base uma doutrina bíblica.

- A segunda regra é o que diz que “É preciso, o quanto seja possível, tomar as palavras em seu sentido usual e comum”, ou seja, devemos sempre entender o texto com o significado imediato que ele se nos dá. É muito perigoso querermos sempre ver o texto como um “símbolo”, uma “figura”, uma “alegoria”. Verdade é que boa parte da Bíblia Sagrada é composta de textos que contêm figuras, símbolos, tipos e alegorias, mas, num primeiro instante, devemos sempre considerar o texto assim como ele está escrito, sem elucubrações. Precisamos ler a Bíblia para saber O QUE ela contém, não para enxergamos o que PENSAMOS que ela tem.

Exemplo: Em Mt.12:46, é dito que pretendiam falar com Jesus Sua mãe e Seus irmãos. Ora, a palavra “irmãos” deve ser entendida em seu sentido usual, ou seja, pessoas que têm os mesmos pai e/ou mãe, não havendo motivo algum para ser entendido que esta palavra tenha outro significado.

OBS: O grande filósofo e teólogo Erasmo (autor do “Textus Receptus”, que é a versão das Escrituras que serviu de base para a maioria das versões protestantes da Bíblia, inclusive para a Versão de João Ferreira de Almeida) (1467-1536) costumava afirmar que deveríamos agir como Isaque, que removeu as pedras que haviam sido postas para tapar os poços abertos por seu pai Abraão por parte dos filisteus. De igual modo, os crentes devem procurar a água, que é a Palavra de Deus, retirando das suas mentes todos os conceitos e idéias que tenham antes de ler o texto sagrado (os “pré-conceitos”), pois podem ser idéias e conceitos que foram colocados pelo inimigo, assim como os filisteus eram inimigos do povo de Deus.

- A terceira regra, que é decorrência da segunda, diz que “É de todo necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.”Além de verificarmos o significado da palavra, tomada ela isoladamente, é fundamental que verifiquemos este significado no conjunto, pois cada palavra tem diversos significados (que o digam os dicionários), mas somente um ou alguns são apropriados num determinado conjunto de palavras.

Exemplo: Ainda em Mt.12:46, quando verificamos a palavra “irmãos”, vemos que ela se encontra num contexto de indicação de parentesco, já que, na mesma oração, temos a palavra “mãe”. Por isso, embora “irmão” tenha, também, o significado de “discípulo”, de “quem compartilha da mesma fé” (como se vê em I Co.15:58), não é este o significado aqui, porque o conjunto das palavras nos leva à constatação de que se trata de parentesco.

- A quarta regra diz-nos que “É necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, a saber, os versículos que estão antes e os que estão depois do texto que se está estudando,” ou, em outras palavras, estudar o “texto no contexto”. Quando vemos alguém ler um livro qualquer, nunca aceitamos que ele leia o pedaço de uma página e, depois, nos diga que já entendeu toda a história do livro. Por que, então, aceitamos que isto se faça com a Bíblia Sagrada, que é a Palavra de Deus? Esta é a principal distorção causada pelos triunfalistas. Eles retiram o texto do contexto e criam um “pretexto”, ou seja, “motivo que se declara para encobrir a verdadeira razão de algo”, que é, precisamente, o que procuram para fazer a sua “arrecadação de fundos”.

Exemplo: Costuma-se dizer que “diante de Deus até a tristeza salta de prazer” (aliás, ensino muito repetido pelos triunfalistas) e, para tanto, se usa como base Jó 41:22b. Entretanto, quando vamos ao texto, verificamos que este versículo se encontra inserido num capítulo em que Deus faz uma série de interrogações a Jó e, mais, que, neste capítulo, Deus está a fazer uma comparação entre o leviatã e o homem. Portanto, este “ele” do versículo 22 é o leviatã e não, Deus.

- A quinta regra diz-nos que “É preciso levar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.” Não basta termos conhecimento do significado das palavras, seja isoladamente, seja em conjunto. É preciso, também, sabermos qual é o propósito do texto, ou seja, se o escritor quis narrar uma história, se está a expressar a sua sensibilidade (poesia) ou, ainda, se está a descrever uma visão, um sonho ou, ainda, se está a explicar ou a ensinar algo. Sem termos noção deste propósito do livro ou do texto, nunca encontraremos o seu real significado.

Exemplo: No Sl.23, sabemos que o salmista não diz que os crentes são animais que vão ser postos num pasto literal, mas, diante do propósito poético do texto, sabemos que a consideração do crente como uma ovelha é uma alegoria, é uma figura para nos explicar o relacionamento que Deus tem para com o homem.

- A sexta regra ensina-nos que “É necessário consultar as passagens paralelas, “explicando cousas espirituais pelas espirituais” (I Cor. 2.13). Como já vimos, a Bíblia explica-se a si própria, de forma que sempre há passagens que se relacionam, que tratam de mesmos temas, assuntos, que contêm os mesmos ensinos. Daí a importância das referências bíblicas que sempre aparecem à margem ou no rodapé das bíblias.

Exemplo: Em Gl.6:15, é dito que o que importa é ser “uma nova criatura”. Mas o que é “nova criatura”? O texto de II Co.5:17 explica-nos que “nova criatura” é “alguém que está em Cristo”. Mas, o que é “estar em Cristo”? O texto de Jo.15:1-8, por sua vez, mostra-nos que “estar em Cristo” é “ser discípulo de Cristo”. Por fim, para ser discípulo de Cristo, vemos, em Jo.3 e em Mt.16:24, é necessário nascer de novo, renunciar a si mesmo e seguir a Jesus.

- Com estas regras básicas, muito do que é apregoado pelos triunfalistas é desfeito e destruído, pois simplesmente não se sustenta. Por que haveremos de passar por uma “corrente de trezentos servos de Deus” para obter uma bênção? A simples leitura do texto em que se fala dos trezentos homens de Gedeão é suficiente para nos mostrar quais os ensinos bíblicos que se fazem a respeito e que nada têm que ver com “correntes” ou coisa parecida. Também uma simples leitura do texto bíblico nos desencoraja a participar de qualquer campanha para retirar a “amargura da vida” mediante a “entrega de ervas amargas”. Quem lê e entende a Bíblia, porque busca sua explicação na própria Bíblia, no Espírito Santo e nos mestres constituídos pelo Senhor na igreja local, terá a mesma vitória sobre estes enganos como teve Nosso Senhor quando enfrentou o inimigo no deserto da Judéia. Caro(a) professor(a) e aluno(a) da Escola Bíblica Dominical, tens entendido o que lês? (se é que lês?).

Autor: Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.